“Eduardo Cunha é uma ameaça à democracia”: uma conversa franca com Jean Wyllys em seu apartamento no Rio

Combatendo o bom combate
Leonardo Mendes, DCM

O deputado federal Jean Wyllys recebeu o DCM esse domingo, em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, para uma entrevista.
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Jean mora em um prédio antigo, em um apartamento simples. Na varanda, tomada de livros, as janelas permanecem fechadas por causa do barulho na esquina movimentada de Copacabana. Um agradável perfume de incenso toma conta da sala.

Falamos sobre algumas das questões políticas e sociais que estão mais em pauta no momento: Estatuto da Família, financiamento de campanhas, lava jato, impeachment, Eduardo Cunha…

Ele também contou um pouco de sua rotina e falou sobre seus planos na carreira política.

A presidente Dilma termina o mandato?

Hoje é difícil saber. Eu espero que sim, porque ela foi eleita pelo povo para ser presidenta por quatro anos e acho que precisamos, todos nós, de esquerda ou direita, governistas e oposição, aprender a respeitar as regras de jogo da democracia.

Dizer isso não significa concordar com o governo dela; eu responderia exatamente o mesmo se o Aécio tivesse vencido as eleições e o PT não aceitasse o resultado e tivesse começado a trabalhar pelo impeachment desde o primeiro dia.

Da mesma forma, criticar o governo Dilma não deve ser confundido com golpismo. Eu sou oposição à esquerda do governo Dilma, discordo radicalmente do que o governo dela está fazendo, acho até suicida a forma em que ela cedeu a todas as exigências dos mercados, do conservadorismo, do fundamentalismo e das corporações, avalio esse segundo mandato da Dilma como muito ruim, ainda pior que o primeiro, mas sou absolutamente contra o impeachment porque não há motivos constitucionais para isso.

Discordar da política do governo não é motivo para um impeachment; quem discorda, como eu, deve trabalhar para construir uma alternativa e vencer as próximas eleições presidenciais.

Quem faz mais mal à democracia hoje: Cunha ou Aécio?
Cunha, sem dúvidas. Eduardo Cunha é a figura mais perigosa para a democracia que atua hoje na política brasileira. É um representante do que há de pior, de mais reacionário, retrógrado, antidemocrático e antipopular. É um lobista das corporações e do poder econômico e um abandeirado do atraso e do preconceito.

A agenda que Cunha impôs ao parlamento e os métodos que emprega desprestigiam o Congresso, ameaçam as liberdades individuais e os direitos humanos e constituem o maior retrocesso democrático desde o fim da ditadura.

O que pioraria com a aprovação do Estatuto da Família?

Pioraria muita coisa. O Estatuto da Família é uma afronta ao STF que reconheceu a união estável homoafetiva como entidades familiares, por unanimidade em 2011.

A partir dessa decisão, o Conselho Nacional de Justiça, provocado pelo meu mandato, entendeu que as uniões estáveis homoafetivas devem ser convertidas em casamento civis.

Isso dá aos casais homoafetivos não só o reconhecimento como entidade familiar, mas toda proteção que o estado oferece às famílias heterossexuais. Então o Estatuto foi criado para atacar esse modelo de família, as uniões homoafetivas, e contrariar a decisão do STF. Mas ao fazer isso ele jogou em insegurança jurídica outros arranjos de família, que não são formadas por pais biológicos e filhos. Famílias entendidas, famílias que surgiram do divórcio, famílias formadas por netos e avós, as famílias singles, porque se a pessoa viver sozinha ou com seus cachorros, ela é uma família, enfim…

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Mas de fato ele consegue esse efeito? Se o STF já julgou a questão…

Vamos por partes. Esse projeto deveria ser conclusivo nessa comissão especial que foi montada por Eduardo Cunha para aprovar o projeto. Eu digo montado para aprovar porque o relator é um fundamentalista religioso, o autor é um fundamentalista religioso e a comissão é majoritariamente composta por evangélicos e católicos conservadores.

Aprovado nessa comissão, o Estatuto não iria ao plenário da Câmara, e sim encaminhado diretamente ao Senado. Diante disso, como sabíamos que nós éramos minoria na comissão e não impediríamos a aprovação, nos antecipamos e recolhemos as 51 assinaturas necessárias para apresentar recurso para que ele seja levado para votação no Plenário.

Na hipótese absurda de o plenário aprovar, a gente pode recorrer ao veto da presidenta e a gente pode recorrer ao STF, e o STF vai dizer que é inconstitucional.

Na verdade ele já disse, já julgou a matéria e o parágrafo 226 da Constituição tem que ser interpretado de modo a incluir as famílias homoafetivas. O problema é que esse projeto causa uma apreensão nas pessoas, você reacende um discurso de que algumas famílias não são famílias.

O que tem de nefasto nesse projeto é que ele ajuda a despertar preconceitos, a disseminar preconceitos. E se ele fosse posto em vigor, os casamentos homoafetivos seriam todos revogados.

As chances de isso acontecer então são muitíssimo remotas…

Muitíssimo, não tem como, mas a bancada fundamentalista acredita que há chances. Eles não prezam pela inteligência, pelo discernimento.

E a questão da chamada “ideologia de gênero”?

É uma expressão cunhada pela direita católica e abraçada pelos fundamentalistas evangélicos pra rotular negativamente as reivindicações do movimento feminista e do movimento LGBT.

Quando a gente demanda por uma equidade de gênero, ou seja, que homens e mulheres devem ter as mesmas oportunidades na vida – e essa sociedade machista, misógina, patriarcal não quer essa igualdade – eles, os fundamentalistas evangélicos, batizam essas reivindicações como ideologia de gênero.

Ideologia de gênero não passa de uma cantilena diabólica repetida sem reflexão, e reproduz apenas argumentos falsos proferidos por pessoas ignorantes sobre o tema: falar em gênero não é falar em ideologia, as pessoas não nascem sabendo seu papel de gênero no mundo, os papéis sociais que caberão a cada sexo biológico.

Estes papeis variam, inclusive, conforme as culturas, e discutir estes papeis é de grande importância na redução de uma cultura sexista, machista e homofóbica.
Sem falar que eles chamam de ideologia, como se eles não tivessem ideologia, como se só o que a esquerda ou os movimentos sociais reivindicam fosse ideologia, e eles estivessem do lado da natureza, do que é natural.
A igreja nunca trata o que ela prega como ideologia, o seu conjunto de ideias como ideológico, mas ela tem uma ideologia. E nesse sentido, essa nossa ideologia de gênero vai contra a ideologia fascista de muitos e muitas.

A filósofa Judith Butler defende a ideia do gênero como uma performance… 

Sim, Judith Butler é a grande teórica, grande intelectual desse movimento que questiona os papeis de gênero e questiona essa sociedade sexista. Uma sociedade sexista divide e hierarquiza os sexos, atribui a um sexo um conjunto de valores, uma performance e um lugar especial, que é o sexo masculino.

E atribui ao sexo feminino outra performance e um lugar subalterno, excluídas do direito, da liberdade sobre o seu corpo. Mas sim, todo gênero é uma performance. O sexo é biológico. E é tanto performance, que eu vou te dar um exemplo: um homem que fizer uma cirurgia para retirada do pênis por causa de câncer, por exemplo, não deixa de ser homem.

Ele não deixa de ter identidade de gênero masculino, não abre mão da performance masculina. Ao mesmo tempo em que é performance, o gênero é sentido muito profundamente. Não se troca de gênero como se troca de roupa, como os fundamentalistas tentam tratar a questão.

Tanto é que as pessoas transexuais sofrem bastante enquanto são obrigadas a viver um gênero que não é o delas.

Outra questão que tem acirrado os ânimos tanto no Congresso quanto no STF é o financiamento de campanha. Como termina essa novela?

Se dependesse do Congresso, nada mudaria, a não ser para pior, mas o Supremo Tribunal Federal tomou uma decisão corajosa em defesa da democracia e da transparência no processo político.

Mais uma vez, o STF colocou as coisas em seu devido lugar. Alguns políticos devem estar desesperados, imagina o Eduardo Paes, prefeito do Rio, pensando: ‘vamos ter que enfrentar o Freixo sem os milhões das empreiteiras’.
Agora precisamos ficar atentos e, se Cunha tentar alguma manobra para passar por cima da decisão do STF, convocar a população às ruas.

No Congresso, contra o financiamento privado de campanhas
Como é a sua rotina como deputado?

O trabalho parlamentar é outra coisa interessante. Vou te dar um exemplo. Algumas pessoas que estão nas redes sociais, quando posto algum texto que não gostam, dizem o seguinte: “Quando foi que escreveu isso, foi durante o horário de trabalho, não deveria estar trabalhando, deputado?”

Quer dizer, não sabem qual é o trabalho de um deputado, tanto é que o Tiririca teve 1 milhão e 300 mil votos com a campanha “Você sabe o que faz um deputado, eu também não, vote em mim que eu descubro”.

O meu trabalho legislativo propriamente dito – propor e votar as leis, discutir – é feito em Brasília, de terça a quinta. As sessões começam pela manhã e tem geralmente se estendido até a madrugada.

Além desse trabalho legislativo, há também o trabalho político, que é atuar na base, reunir com sindicatos, ir às universidades dar palestras, reunir com o movimento social, organizar audiências públicas, fazer diligências, oitivas etc. Quase sempre volto para fazer esse trabalho no Rio, pois foi esse estado que me elegeu, mas o meu mandato tem uma abrangência nacional.

As questões que trabalho interessam ao Rio de Janeiro, mas interessam também a São Paulo, Bahia, Pernambuco etc, então eu cumpro agenda pelo país inteiro. A maioria dos deputados federais parece se comportar como vereadores federais, são pessoas que vão pra lá defender questões paroquiais, quase sempre do município que os elegeu.

Tem um deputado, por exemplo, que vem de São João de Meriti e age como vereador de São João de Meriti. Ele não entra nos debates nacionais, que interessam a toda a população, mas ao mesmo tempo ele vota, muitas vezes sem saber a matéria que está sendo votada. O líder do partido diz como ele deve votar e ele vota.

O trabalho que eu faço é o de um verdadeiro deputado federal. Minha rotina é essa: saio de Brasília na noite de quinta, nem sempre vou para o Rio, e volto para Brasília na segunda. Durmo três horas por dia.

Três horas por dia?!

É que eu ainda quero assistir às séries! (risos) E escrevo pra Carta Capital, pro IG, apresento um programa no Canal Brasil, o Cinema em outras cores, participo do Havana Connection…

Falando em Havana, você tirou uma foto vestido de Che Guevara, a pedido da revista Rolling Stone, e recebeu críticas por ele ter sido homofóbico. É uma crítica justa?

A ideia da revista era jogar com a imagem do revolucionário, pois enxergaram o meu mandato como revolucionário. A ideia era provocar tanto a direita, que não consegue lidar com a igualdade de direitos, quanto a esquerda, pois ele é o macho alfa da esquerda.

E a gente pode dizer que Che Guevara era homofóbico no tempo dele. Um tempo em que o movimento LGBT não estava organizado a ponto de fazer as pessoas pensarem sobre essas questões. Mas falta leitura, falta repertório, e as pessoas começam a repetir a tagarelice dos canalhas e são arrastadas por uma enxurrada de burrice.

Então dizem, “ah o Che Guevara era homofóbico e o Jean se vestiu de Che Guevara”. Tem bicha dizendo isso e dá vontade de responder, “bicha, vai estudar”! Porque você tem que entender que o legado de um homem não pode ser reduzido a uma única postura desse homem, ou se fosse assim, teríamos que desqualificar completamente a biografia de muitos homens e mulheres, que foram homofóbicos no seu tempo, porque nunca tiveram sequer a oportunidade de pensar sobre a questão.

Você vai então reduzir Che Guevara a isso? Um cara que lutou contra a tirania de um canalha como Batista em Cuba, um cara que pregou uma ideia de igualdade, de um mundo mais justo, e você vai apagar isso porque você considera hoje ele homofóbico, com as réguas que você tem hoje vai medir o homem que ele foi ontem? Deixa de ser burra, bicha, vai estudar.

Como Guevara, para uma revista
(risos) E quanto ao comunismo, falta também muito estudo?

É preciso lembrar as pessoas que a Guerra Fria acabou! Elas falam sem compreender o que há de profundo na questão. Qual é a crítica vigorosa que Marx faz ao capitalismo?

Quem leu O Capital, quem leu Piketty? As pessoas não leram nada, mas saem falando e querem reduzir uma discussão profunda – sobre o modo de produção da riqueza, sobre como distribuir a riqueza do mundo, qual o melhor modelo de gestão pra que todas as pessoas tenham uma vida boa – a xingamentos, e a palavras e frases que foram esvaziadas de seu sentido, como comunista, ou “vai pra Cuba”.

É cansativo, mas há tanta estupidez hoje no mundo, tanta dificuldade no debate sério, que quando ouço alguém me chamar de comunista como um xingamento, só tenho pena dessa pessoa.

Primeiro, porque comunista pra mim não é xingamento. Jesus foi comunista. Ele não dava esse nome para o mundo que ele sonhava, mas o mundo que ele sonhava era um mundo comunista.  “Os cristãos tinham tudo em comum, dividiam os seus bens com alegria. Deus espera que o dom de cada um se reparta com amor no dia a dia”.

Esse é o verso de um canto cristão. A minha formação é cristã, apesar de ter me afastado da igreja por razões óbvias. Minha formação é do movimento pastoral da igreja católica, foi isso que eu aprendi. Então, quando me xingam de comunista, eu dou risada, porque isso, para mim, é um elogio.

Eu quero um mundo em que as pessoas não morram de fome, em que ninguém tenha que beber água podre, que tenham acesso a medicamentos, a lazer, em que as pessoas possam se deslocar com segurança, que possam escolher entre ser artista, médico ou marceneiro, que isso não seja uma imposição.

Eu quero que essa riqueza produzida por todos nós, seja partilhada por todos nós. Se isso é ser comunista, obrigado, eu sou comunista.

Quais seus planos na carreira política?

Eu tenho ainda mais de três anos de mandato pela frente. A minha prioridade é cumprir com os quase 145 mil eleitores que votaram em mim, mais de 11 vezes a votação que eu tinha tido em 2010. É uma responsabilidade enorme! Depois, o tempo dirá.

No Rio de Janeiro, o deputado estadual do PSOL Marcelo Freixo parece ter chances reais de vencer uma disputa pela prefeitura, assim como Luciana Genro em Porto Alegre. Já as eleições presidenciais ainda estão distantes, mas acredita que o PSOL possa chegar em 2018 também com chances reais?

Marcelo Freixo e Luciana Genro têm muitas chances de vencer e a possibilidade de o PSOL governar duas cidades tão importantes como o Rio de Janeiro e Porto Alegre é um desafio interessante.

Vamos poder mostrar que fazemos diferente. Flávio Serafini tem possibilidades de ser prefeito de Niterói, Renato Roseno em Fortaleza, e ainda há outros. Eu não vejo 2018 com ansiedade.

Sou realista e sei que as possibilidades de vencer a próxima eleição presidencial são mínimas, mas podemos crescer como uma terceira via, talvez ocupar o espaço que a Marina não soube ocupar por seus próprios erros, só que com uma perspectiva ideológica diferente, à esquerda.

E se o PSOL fizer isso e fizer bem, pode não vencer a eleição, mas pode mudar a agenda política, instalar debates que estão ausentes nas campanhas dos outros candidatos e crescer pensando no longo prazo. A Luciana fez bonito em 2014 e podemos aprofundar esse caminho.

Acha que o Lula volta em 2018?

Ele vai tentar, mas acho difícil. O modelo lulopetista está esgotado e o mais triste é que os erros desse governo, que venceu as eleições prometendo uma guinada à esquerda e fez uma brutal guinada à direita, vão acabar desprestigiando o pensamento e as ideias de esquerda como um todo.

Nunca a ultradireita se fortaleceu tanto. Vai custar muito reconstruir a esquerda democrática no Brasil, mas é uma tarefa necessária que deve ser encarada por uma nova geração que não repita os erros do PT.

Como você define o que a mídia vem fazendo?

Há muitas mídias, e graças à internet e às novas tecnologias temos as mais diversas maneiras de procurar informações e análises da atualidade. Deixa a Veja na mesa da sala de espera do dentista e procura outras fontes!

O que acha do Moro e da Lava Jato?

Acho que as investigações têm que ser feitas sem distinções ou preferências políticas. A Lava Jato é a ponta do iceberg de todo um sistema de governança e de financiamento da política que envolve dirigentes de muitos partidos da base governista e da oposição.

Eu não vou opinar sobre Moro ou sobre um caso em especial. Todos devem ser investigados. Contudo, se a gente achar que apenas com processos penais e algumas prisões vamos acabar com a corrupção, não entendemos nada.

A corrupção não é apenas um problema moral individual e não é patrimônio de um partido, é um problema sistêmico. As nove empreiteiras da lava-jato doaram para as campanhas de 255 dos 513 deputados. De todos os partidos com representação no Congresso, apenas o PSOL não aceitou dinheiro delas.

Isso está nas prestações de contas. Doaram para a Dilma e para o Aécio em partes quase iguais. Não basta prender 5 ou 10 políticos, tem que mudar as regras do jogo. Por exemplo, acabando com o financiamento empresarial de campanha.

Mas a House of Cunha vai na contramão. Assim, a Lava Jato é apenas um episódio, não vai mudar nada.








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