Campanha da oposição dissemina o ódio e afronta a democracia

"A direita brasileira volta a mostrar a sua cara. Velha conhecida do povo brasileiro e rejeitada nas urnas na última década, a direita ascende montada no discurso de ódio e intolerância.

Dayane Santos, Vermelho

Há alguns anos, colunistas e jornais da grande mídia reclamavam que a direita não assumia seu posto oficialmente. A choradeira era porque, diante da rejeição nas urnas, ninguém queria dizer que era de “direita”, o que deixava parte da elite conservadora a vagar como uma mula sem cabeça.

Em 2011, por exemplo, o jornal Estado de S. Paulo escalou uma pesquisadora norte-americana do Centro de Estudos David Rockefeller da Universidade de Harvard, Frances Hagopian, para tentar convencer o PSDB a sair definitivamente do muro e assumir o posto de paladinos da direita. Sob o título “PSDB precisa assumir-se como partido de centro-direita”, a professora dizia: “Acredito que eles [os tucanos] podem se destacar nesse espaço de centro-direita, se tiverem coragem para fazer isso”. A professora norte-americana afirmava que os tucanos deveriam “mostrar o que fizeram” durante a gestão do FHC (1995-2002) e “ser fiéis a si mesmos”.

A realidade não permitia que o PSDB seguisse tal conselho. Donos de uma política neoliberal, sua gestão só trouxe desemprego, arrocho salarial, quebradeira da indústria, privatização que infelicitou e causou danos ao povo brasileiro. Até mesmo durante a campanha eleitoral, os tucanos escondiam FHC debaixo da mesa para não queimar o filme já desgastado.

Eleição de Lula

As profundas transformações promovidas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde que tomou posse, em 2003, intimidaram a direita conservadora, representante da elite que se incomodava com a ascensão da população mais pobre, que agora tinha mais renda, mais direitos e dividia alguns espaços na Casa Grande.

A vitória nas urnas pela quarta vez consecutiva do campo progressista não foi digerida pela oposição. “No fundo, 2014 é um ano que não acabou para a oposição, nos fizeram entrar no pós-eleição no terceiro turno continuado”, disse o ministro da Casa Civil, Aloisio Mercadante. "Eu participei da coordenação das últimas sete eleições presidenciais, perdi três. A oposição perdeu quatro sucessivas, 12 anos de derrota. Não foi fácil para gente e não é fácil para eles. Temos uma responsabilidade imensa de preservar os valores democráticos, as instituições. Significa reconhecer a vontade da maioria. Acabou a eleição, acabou", completou o ministro, evidenciando o grau de polarização política que contaminou as instituições.

Derrotados, os tucanos buscam o caminho mais reacionário e tentam se aproveitar da crise econômica. Na política, defendem e votam em pautas como a terceirização de atividades-fim, o financiamento empresarial das campanhas eleitorais, redução da maioridade penal, legislação repressora para a comunidade LGBT, entrega da exploração do pré-sal aos cartéis internacionais.

Discurso da intolerância

No discurso, o partido arregimenta em torno da campanha do ódio com o objetivo de retirar de qualquer maneira o seu desafeto político do poder porque obteve 54 milhões de votos nas urnas. Gritam contra a corrupção, mas erguem a bandeira da intolerância.

Matéria publicada pelo El País, nesta segunda-feira (7), descreve Vitor Otoni, presidente da juventude do PSDB do Espírito Santo, que divulga mensagem nas redes sociais vestindo trajes militares, boné e óculos escuros, apontando uma arma para o além, afirma: “Podem vir Evo Morales, (Nicolás) Maduro, MST, e os esquerdopatas do cão, estamos prontos para a guerra”.

O comportamento de Otoni não é uma atitude isolada dentro do PSDB. Há poucos dias circulou mensagem do advogado Matheus Sathler Garcia, filiado ao PSDB e foi candidato a deputado federal pelo Distrito Federal, em que dizia que “arrancaria a cabeça” da presidenta Dilma. “Assuma seu papel, tenha humildade para sair do nosso país, porque, caso contrário, o sangue vai rolar, e não de inocentes. […] Com a foice e com o martelo, vamos arrancar sua cabeça e pregar, e fazer um memorial para você”, disse.

A produção de um boneco inflável do ex-presidente Lula em trajes de presidiário perambulando pela cidade é outro exemplo dessa campanha de ódio. Danem-se os fatos, pois sem nenhuma investigação ou fato que possam incriminar Lula, a direita destila seu ódio contra aquele que foi o presidente mais bem avaliado da história do Brasil.

Povo é a principal vítima

Mas engana-se quem acredita que essa campanha de intolerância da oposição, apoiada pela imprensa, se limite aos partidos. Ela afeta a toda a sociedade.

A dubladora Mariana Zink foi alvo dessa intolerância criminosa. Após sair de um jogo no complexo de futebol society Playball Ceasa, em São Paulo, no último dia 3, a jovem foi abordada por dois homens que, aparentemente, se incomodaram com o fato de ela não ter respondido às suas abordagens e de estar vestindo um moletom com estampa de estrelas.

“Sofri provavelmente a maior opressão e humilhação pública que eu possa me lembrar. Tudo porque cometi o terrível e grande crime de usar esse moletom ‘comunista’ da Adidas”, relatou a jovem em matéria publicada no site Dibradoras.

Segundo ela, um dos homens perguntou: “Me diz uma coisa, esse seu moletom aí é de estrela por quê?”. Ela seguiu em silêncio e o homem insistiu: “Não vai me dizer que é do PT? Era só o que faltava! Alguém usar as estrelas do PT, eu odeio o PT. Você é muito bonita pra usar essas estrelas”.

A jovem respondeu: “Não, não é do PT. Mas e se fosse?”. Foi o que bastou para, como ela mesma descreveu, “soltar o monstro da jaula” e partir para cima de Mariana. “Sua filha da puta comunista, o Brasil tá nessa merda de crise por causa de pessoas como você, sua comunista filha da puta. Vai para a puta que pariu, sua vaca...”, esbravejou o mostro.

“Ele surtou. O bar estava cheio de outros amigos dele, que começaram a rir e a gritar junto e eu fiquei com medo. Então sai porque estava sozinha, porque tenho 1,58 de altura, porque sou mulher. É muito fácil ser o machão de 50 anos rico, vir brigar com a menina de 27 anos, que desde o começo estava com a cabeça abaixada. Ninguém fez nada”, afirmou Mariana.

E conclui: “Não foi engraçado, não foi uma brincadeira. Aquele ódio era tão verdadeiro. E é tão comum. Cheguei em casa chorando, me sentindo impotente. Esse ódio disfarçado de justiça hoje chegou diretamente até mim. Sigo me perguntando de que lado estão os ‘homens de bem’ e de quais lados estamos falando”.

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