Brasil vive clima de “guerra civil” sem armas


Hélio Doyle, Brasil 247

Um país em guerra civil não tem como enfrentar com sucesso seus problemas econômicos e financeiros. Nem é preciso explicar por quê. O Brasil não vive uma guerra civil, pois não há conflitos armados, mas o clima de beligerância exaltada que existe hoje, da mesma maneira, impede que soluções viáveis e eficazes sejam encontradas para superar a crise e retomar, ainda que em prazo longo, o crescimento e o desenvolvimento do país.

Esse clima de “guerra civil” sem armas que existe hoje tem a mesma motivação da guerra civil com armas: derrubar o governo eleito em 2014. E em estado de guerra não há, por parte do lado que busca a derrubada do governo, o menor interesse em encontrar saídas para a crise. Para os que querem o fim do governo, quanto pior, melhor. Que a crise se agrave.

A presidente Dilma Rousseff está sob o cerco das forças que lhe fazem oposição e querem vê-la fora do governo. Não há trégua, a não ser por um ou outro pronunciamento mais conciliador por parte de alguns oposicionistas que querem desgastar a presidente para vencê-la nas próximas eleições, não para destroná-la agora.

Não há como tirar de Dilma e do governo a culpa pela situação ter chegado a esse ponto. Os erros na política, na economia e na gestão foram muitos no mandato anterior e continuam sendo muitos agora. A condução irresponsável da campanha levou à vitória eleitoral e à derrota política. É fácil para um marqueteiro ganhar a eleição e viajar para Paris no dia seguinte, cheio de dinheiro e sem nenhuma responsabilidade pelos desdobramentos das enganações que plantou. Fez o seu trabalho, e do avião pode dar ao país aquela célebre banana da antiga novela.

O governo está sitiado. Pelas forças políticas de oposição, que, ainda que divididas quanto à solução posterior, estão unidas para derrubá-lo. Pela chamada grande imprensa, boa parte da qual deixou de fazer jornalismo para fazer política, e que empresta seus espaços a redatores de panfletos raivosos.

Por banqueiros e empresários – não todos, ainda -- que não veem mais na presidente as condições para liderar a retomada do crescimento. Pela maioria da população, que mesmo não sendo necessariamente simpática à oposição, está insatisfeita pela queda da economia e pelos inúmeros casos de corrupção desvendados a cada dia.

Não há clima para o debate qualificado, para a discussão democrática, em torno da crise ou de qualquer tema. Os que querem derrubar o governo radicalizaram suas posições e seus procedimentos. Seus discursos e ações são demagógicos e irresponsáveis. Recorrem à violência, ao ódio, a palavras de ordem fascistas e neonazistas. Incitam a população a hostilizar o outro lado, a agredir, até a recorrer à baixaria, como fez o medíocre cantor Fábio Júnior em público, e no exterior.

É, sem dúvida, o pior dos mundos para Dilma. Mas o governo sitiado, cercado, tem de reagir. E juntar suas forças, ainda que minoritárias, para enfrentar os adversários que, muitos deles, já se portam como inimigos. O que vemos, porém, é o governo errando um pouquinho mais a cada dia, sem estratégia, sem planejamento, recorrendo a velhas e desgastadas fórmulas para sair das cordas. E sem saber, de fato, como superar a crise: vai pela fórmula de Levy ou de Barbosa, vai atender ao empresariado ou aos movimentos sociais? O governo não consegue discutir os remédios que propõe sequer internamente e com sua já reduzida, embora forte, base social.

A ofensiva oposicionista já tem seus adeptos dentro do próprio governo. É grande a presença do que se chama de quinta coluna: os infiltrados que sabotam o governo de dentro, como se fossem aliados. E que já se posicionam para ocupar seus lugares no que, pensam, virá depois. Quinta colunas, em qualquer guerra, têm de ser combatidos.

Resistir à ofensiva adversária é preciso, para o governo. E possível, apesar do cerco se apertando. Mas para isso é preciso dizer claramente à sociedade qual é sua estratégia para combater a crise, e não ficar indo e vindo, tomando decisões e recuando, aceitando as divergências internas como naturais. É preciso mostrar que não aceita a corrupção, mas aí não pode conciliar com corruptos notórios, da base ou de fora, e manter no governo ministros acusados, mesmo que a culpa não tenha sido comprovada. É preciso sair do isolamento, mas não erguendo muros na Esplanada dos Ministérios. Para sair do cerco e enfrentar a crise, é preciso adotar métodos novos.

A derrubada do governo passa, nos planos dos oposicionistas, pelo Congresso e pelo Judiciário. É o chamado golpe brando, sem armas. Mas só acontecerá com o apoio da maioria da população. Há uma boa parte do povo querendo a derrubada, mas nem todos os que hoje estão contra o governo acham que esse é o caminho. É essa parcela que o governo tem de ter a seu lado contra o golpe, além, claro, dos que já o apoiam.

Para isso, porém, o governo tem de tomar rumo. Do jeito que vai, não vai."       

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