As questões de gênero e sexualidade invisíveis à mídia

Foto: Camila Cunha
"Fernanda Nascimento é jornalista, repórter do Jornal do Comércio e mestra em Comunicação Social pela PUCRS. Com outros comunicadores, ela criou o grupo de ação e debate sobre Gênero, Mídia e Sexualidade (GEMIS). No final do julho, Fernanda lança o livro Bicha (nem tão) má – LGBTs em telenovelas (Editora Multifoco). O Jornalismo B conversou com a jornalista sobre gênero e sexualidade e sobre a atuação do Gemis.

Gabriela Féres, Jornalismo B

Fernanda Nascimento - O lançamento oficial do Gemis foi em setembro de 2014, mas a gente já estava se articulando desde abril. O estopim para o desenvolvimento do Gemis foi a notícia que saiu no jornal Zero Hora sobre a agressão sofrida por Natália Rios, uma mulher trans. A reportagem trazia uma série de confusões sobre a identidade de gênero e orientação sexual. Ao longo da notícia tinha, por exemplo, o nome que foi designado a ela no nascimento, que é um nome masculino, o que é uma violência também, além da agressão física que ela já havia sofrido, o jornal estava fazendo uma agressão simbólica. Nós sabemos que as pessoas transexuais costumam, inclusive, chamar o nome que lhes foi designado no nascimento como falecido ou falecida, então elas passam por todo um processo de identificação, de conseguir se apresentar para a sociedade e enfrentam muito preconceito. Então, quando elas já tem sua identidade socialmente reconhecida entre amigos e familiares, e acontece uma agressão e o jornalista ao retratá-la, reafirma a violência e deslegitima a identidade da pessoa.

A partir desse acontecimento, que é recorrente – essas notícias continuam acontecendo a toda hora – eu, o Samir Oliveira, que era repórter do Sul21, hoje é assessor de imprensa, e a Débora Fogliatto, que é repórter do Sul21, pensamos no que poderíamos fazer para conscientizar as pessoas a respeito desse tema. No caso da reportagem da ZH, o Samir procurou o jornalista que assinou a matéria e deu algumas dicas para ele sobre o que considerava mais adequado. A ideia do Gemis é de fazer essa discussão, interlocução entre os movimentos sociais e os jornalistas e comunicadores. A gente não acredita que seja mau-caratismo ou uma questão individual, não, isso é fruto de uma construção social. O jornalismo não está separado da sociedade, ele está dentro de uma sociedade que é excludente e que marginaliza a população LGBT e faz muito disso através do silenciamento. Quando a gente silencia, a gente também perpetua esse poder e essa hierarquia que é de uma norma heterossexual e cisgênera. Essa lógica da normatividade diz que todos os sujeitos que não são heteros e cis são anormais e que não é necessário discutir sobre eles. Assim, a mídia reproduz diversas formas de estigmas e discriminações.

Como o grupo se constitui hoje e quais são as formas de atuação?

No início, nós tínhamos a ideia de ir nas redações e fazer palestras e um trabalho de conscientização nesse sentido. Ao longo do tempo, nós percebemos que isso não seria suficiente. Uma conversa em uma redação seria pouco, quanto tempo os jornalistas teriam para conversar com a gente? Talvez 15 minutos. Como podemos falar de gênero e sexualidade em 15 minutos? Uma construção histórica, que perpassou por toda a socialização dessas pessoas, passou pela escola, passou pela universidade, passou por várias esferas, a familiar, entre os amigos. Como é que vamos desconstruir esses conceitos em 15 minutos? Então a gente percebeu que não teríamos como fazer isso. A nossa ideia agora é de deslocar o debate. Nós ajudamos os profissionais que nos procuram com dúvidas pontuais, por exemplo, “o que significa LGBT?” ou questões mais macro de dúvidas conceituais. Também temos feito muitas atividades em universidades, porque é mais fácil essa questão de tempo, os alunos muitas vezes são liberados para participar de palestras, oficinas, workshops, durante o horário de aula. Nós temos falado muito em universidades da região metropolitana, temos dado entrevistas também. Eu, como repórter, sempre aprendo quando faço uma entrevista, então também é um espaço de diálogo.

O Gemis cresceu muito nesse tempo, porque novas pessoas se incorporaram. Hoje o grupo tem cerca de 20 pessoas, algumas são do meio acadêmico, uma colega é pós-doutoranda, outros são doutorandos, mestrandos, tem um pessoal que está fazendo graduação e é militante do movimento estudantil. Nós temos experiências distintas e níveis de relação com a temática distintos. O Gemis também foi se deslocando da discussão da população LGBT para uma discussão mais ampla de gênero e sexualidade. Fomos percebendo que as temáticas que nós abordávamos não eram só com relação à população LGBT, mas também, por exemplo, temáticas de questões das mulheres heterossexuais e homossexuais, assim como de mulheres cisgêneras e transgêneras. Então a gente percebeu que, se a gente não pensasse sobre gênero e sexualidade de maneira interseccional, passando também pelas questões de raça, classe e geração, não faria sentido. Nós estaríamos isolando e universalizando identidades. Então essa é a trajetória que o grupo tem construído, estamos passando por um processo de mudança da logomarca muito nesse sentido, de que a gente discute, sim, a população LGBT, mas o nosso foco de atenção tem sido muito mais amplo, para discutirmos também a questão do gênero, por exemplo, das relações de homens e mulheres. Pretendemos também nos constituirmos como pessoa jurídica para conseguirmos participar de editais e ampliar a nossa linha de atuação. O Gemis é um coletivo, e existir juridicamente pode nos permitir ampliar a nossa atuação para o interior do estado, por exemplo. Nós fazemos uma militância autônoma, e talvez, com se pudéssemos dedicar mais tempo, poderíamos alcançar mais pessoas.

Neste tempo de atuação, vocês conseguem observar mudanças na mídia? O debate tem avançado?

A gente ainda não tem como mensurar quantitativamente, mas eu acredito que sim. Cada matéria que a gente possa ter ajudado a um colega a mudar ou a repensar é um avanço. Quando aprendemos qual artigo usar quando tratamos de uma travesti ou uma pessoa trans, esse conhecimento vai ser usado nas próximas matérias que faremos. Quando paramos para pensar em qual artigo usar, estamos querendo respeitar a identidade daquela pessoa que foi marginalizada ao longo do tempo.

Acredito que teve mudanças, sim. O caráter do nosso grupo é de diálogo, já até fizemos alguma nota de repúdio por algo mais significativo, mas o nosso caráter não é de dizer o que está certo e o que está errado. A questão não é problema de um veículo de comunicação ou de um jornalista. É um problema estrutural, sobre o qual precisamos dialogar para não distanciar as pessoas. Nosso público é formado por jornalistas, nossos colegas, então queremos ensinar o que está certo e o que está errado, nós também estamos em constante aprendizado. Tem surtido bons efeitos, quando saem matérias mais problemáticas, tentamos dialogar com as pessoas e explicar quais são as falhas, e as pessoas se mostram abertas, porque nunca tiveram a possibilidade de conversar sobre essa questão. O conhecimento também é um aprendizado pelo que não dizemos, então se nós não falarmos sobre as formas de sexualidade e de gênero e silenciarmos outras vivências, como vamos escrever sobre elas?

Como as formas pelas quais a mídia aborda o gênero e a sexualidade ajudam na construção do imaginário coletivo sobre esses temas?

A mídia tem um papel fundamental na construção das nossas identidades, é um dos lugares por onde construímos e nos identificamos. A forma como nos identificamos e construímos as nossas identidades como mulheres e como homens também é nas nossas relações pessoais, com família e amigos, mas também nos veículos de comunicação. E as construções têm sido problemáticas. Por exemplo, falando sobre a população LGBT, qual parte é mais legitimada, quais construções estamos vendo? Na minha dissertação de mestrado, “Bicha (nem tão) má”, pesquisei sobre as telenovelas brasileiras. É possível perceber que, por exemplo, a identidade de lésbicas butch, lésbica sapatão, não é uma identidade visível, tem uma identidade que é mais legítima, que é a lésbica chique, que é uma identidade mais regulada. Outro dia eu conversava na roda do Gemis com o Gustavo Passos, que é doutor em Educação na Ufrgs, sobre o porquê de não vermos homens trans na sociedade e ele apontava que os homens trans são totalmente invisíveis para a mídia, então como as pessoas vão se reconhecer enquanto homens trans? Na escola a pessoa é identificada como menina, por exemplo, mas talvez não se identifique com isso e talvez nem saiba como se identificar porque não há uma categoria formal, a pessoa nem sabe que aquilo existe porque não está representado em lugar algum. Então ver em uma novela pessoas lésbicas e pessoas trans e conseguir perceber a própria identidade semelhante com aquela é importante. No entanto, nós vemos um silenciamento de muitas identidades, enquanto outras são escolhidas para serem legítimas, principalmente heteros e cisgêneras, e quando se trata de identidades LGBT, também há as que estão mais dentro da norma. O avanço que temos tido nos últimos tempos ainda é muito regulado, somente algumas identidades é permitida a visibilidade.

Como a formação acadêmica interfere na construção desta mentalidade, que não debate certos assuntos e não fala sobre determinadas identidades?

Acho que muitas vezes gênero e sexualidade são tratados como assuntos menos importantes pela academia. Algumas áreas do conhecimento consideram importante a discussão, como a Psicologia, a Sociologia e a Educação, mas na Comunicação ainda não é considerado algo importante. Eu costumo dizer que nós não temos professores para as nossas bancas de mestrado e doutorado, porque não existem professores que pesquisem isso, porque não é importante perceber essas relações de poder. Parece que as relações mais importantes são aquelas quando se fala de poder econômico. Contudo, essas relações de gênero também hierarquizam e colocam os sujeitos em determinados locais, onde os homens detêm o poder superior ao das mulheres, assim como as pessoas héteros também estão em um local de poder superior ao das pessoas homossexuais, as pessoas cis também estão acima das pessoas trans. Então são formas de hierarquizar os sujeitos e de dizer em que lugares eles estão. De uma forma geral, a comunicação começou recentemente a dar alguns sinais de que talvez possa discutir isso, mas com muita resistência, até porque muitos professores não consideram que isso seja importante, por resquícios de décadas de não-discussão. Há também uma percepção da esquerda de achar que é mais importante discutir a questão de classes que discutir a questão de gênero, de que é mais importante discutirmos questões econômicas, sobretudo. Acontece também com a questão de raça, o Brasil é um país onde o racismo é totalmente negado e silenciado, não discutimos sobre isso. A maioria da população é formada por pardos e negros, que não estão nas universidades, não estão nos locais de poder, e nós não discutimos isso nas universidades também.

O tempo todo o nosso local na sociedade é demarcado, sofremos discriminação e resistência. Acessos nos são negados em decorrência dessas temáticas, mas parece que para a Comunicação isso não é uma questão importante. Porém, há uma geração que tem discutido mais sobre isso nos últimos tempos. Eu me formei há quatro anos, e nesse período percebi que os trabalhos de conclusão de curso de agora estão trazendo mais as questões de gênero e de sexualidade, algo que não existia quando eu me formei. Eu espero que as novas gerações pressionem as universidades para que se fale sobre isso, para que os professores incluam essas temáticas.

A Márcia Veiga, também do Gemis, escreveu o livro “Masculino: o gênero do jornalismo”, e ela mostra como os modos de produção das notícias são permeados pelas relações de gênero. Nós não precisamos de uma disciplina específica para discutir o gênero, isso está perpassado por todas as coisas que fazemos. Então é possível debater essas questões em qualquer disciplina, basta querer e se preparar. Falta incentivo e reconhecimento da importância deste assunto.

As redações dos grandes jornais ainda são majoritariamente formadas por pessoas brancas, heteros e cisgêneras. Que tipo de representatividade esse jornalismo tem sobre a sociedade brasileira?

Eu acredito que cada pessoa tem uma visão de mundo a partir da sua identidade e dos seus marcadores. As pessoas que estão em uma posição de privilégio social, que são pessoas do gênero masculino, heterossexuais, brancos, de classe média ou superior. São vários marcadores que colocam esse privilégio, então repensar do ponto de vista do outro que a sociedade não é justa, é difícil. Mesmo no movimento feminista, por exemplo, mulheres cisgêneras, como eu, tem privilégios em relação às mulheres trans, e eu preciso, no mínimo, reconhecer a necessidade da luta das mulheres trans e pensar que eu não vou ser protagonista dessa luta, mas que eu posso estar ao lado delas. As pessoas, de modo geral, tem dificuldade em perceber os próprios privilégios. A desigualdade é consequência do sistema que temos. Na questão da raça, por exemplo, o Brasil é um país majoritariamente formado por pardos e negros e muitas pessoas não se identificam enquanto tais, porque ela não quer ser negra ou parda, porque isso significa ser uma pessoa inferior, porque é o que nos dizem o tempo todo, negam acesso a determinadas situações em decorrência disso. E com essa visão de mundo, não é possível esperar algo diferente dos jornais. Eles não vão tratar de temáticas de mulheres, de LGBT, e de pessoas trans e de população pobre, ou sobre essas vivências que eles nunca tiveram, e sequer pensaram sobre isso. As pessoas que têm privilégios não querem debater questões de desigualdade. As pessoas que comandam a mídia têm uma classe, uma cor, uma sexualidade, e nós estamos tentando buscar brechas de resistência dentro de toda essa construção cultural.


A mídia alternativa tem conseguido formular um discurso diferenciado sobre a sexualidade e o gênero?

Talvez. Não é porque é uma mídia alternativa que esse debate vai ser feito. Recentemente tivemos o episódio do Jornal Tabaré, que envolveu uma questão de gênero fortíssima, o que fez com que as meninas do jornal saíssem, em decorrência de reiteradas reproduções de machismo e sexismo em uma redação alternativa. Então, ser mídia alternativa não garante nada. Talvez as pessoas estejam mais predispostas a discutir isso, porque percebam as desigualdades, mas se não repensarmos, vamos acabar reproduzindo, de uma forma ou de outra, os preconceitos. Pautas de gênero e sexualidade entram mais na mídia alternativa, mas algumas vezes os padrões de relações se mantém, quem são essas pessoas, de qual raça são essas pessoas, de qual classe são essas pessoas.

O caso da Laura Vermont, travesti que foi assassinada em São Paulo recentemente, mostrou como a mídia insiste em trazer a informação do nome de nascimento dela. Por que isso persiste, qual é a relevância dessa informação?

Eu também me pergunto isso. Qual é a importância de colocar o nome designado no nascimento dessa pessoa? Nenhuma, a não ser por desrespeito, desconhecimento e ignorância. Os jornalistas às vezes não percebem isso e usam argumentos para justificar, alegando que é como está no registro policial, como se a autoridade policial não fosse uma constituição social também e o registro policial não fosse escrito por uma pessoa.

Na esfera política, o debate de gênero não está avançando em decorrência de questões religiosas e de conservadorismo da política, a mídia também não está trazendo o debate como poderia. Como se pode avaliar isso e fazer o debate com a sociedade?

A mídia não entendeu o que está em debate. Há uma onda conservadora fortíssima, e discutir gênero e sexualidade não é só para pessoas LGBT, mulheres. Na política, os conservadores tentam tirar qualquer possibilidade de discussão e do outro lado há uma bancada de Direitos Humanos que tem que correr para todos os lados, para discutir maioridade penal, a questão de gênero e sexualidade nas escolas. A mídia muitas vezes noticia sem entender o que está falando, o Plano de Educação foi um exemplo disso. A mídia não entendeu o que significava discutir gênero e sexualidade nas escolas. A chamada “ideologia de gênero” foi uma invenção dos setores conservadores, não existe ideologia de gênero. Os políticos pediam a retirada da ideologia de gênero do plano, mas ela nem entrou no plano, porque não existe. Os jornais noticiaram a retirada da ideologia de gênero, mas não tinha ideologia de gênero. Faltou apuração, boa vontade, conhecimento do que estava em discussão e do que significava isso, que era a evasão escolar da população LGBT, naquele caso, mais especificamente, das pessoas transexuais."

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