E agora, para onde caminhar?


Fernando Brito, Tijolaço 

"A duras penas e com imenso risco para a continuidade do regime democrático, o Governo Dilma parece ter retomado – convenhamos, meio à força – a ideia de que o poder político precisa, para se manter, da política, embora a política seja hoje a mixórdia que a mídia e o poder econômico dela fazem.

O monstro golpista, embora já visíveis os contornos de sua face larval, não mostrou – talvez, ainda – capacidade de romper a frágil casca da legalidade e assumir sua forma horrenda sem disfarces “institucionais”.

Mas está vivo, vivíssimo e não poderá ser detido apenas pelos arranjos políticos necessários, mas insuficientes.

À esquerda e à direita, percebe-se isso. Ricardo Mello, na Folha, resume numa frase um fato que não é novidade, por permanente, embora novo seja seu estado de excitação midiático-institucional: “Dilma, Lula e o PT prosseguem na linha de tiro, ainda que somente para imobilizá-los”. Dora Kramer, que se tornou a feroz matrona do pensamento conservador, no Estadão, diz que o governo deve fazer, agora, “o que a sociedade (leia-se, a manifestação da Paulista e de suas sucursais Brasil afora) espera” que é, naturalmente, a agenda derrotada no voto.

Tornou-se evidente, exceto para os tolos de ambos os pontos cardeais, que é preciso ceder na política.

Mas não parece ser evidente, no campo progressista, que é preciso (re)aproximar-se do povo com a mesma elasticidade e esforço, para que as próprias forças não se diluam na dependência alheia dos fracos.

A questão está muito bem colocada hoje pelo professor Aldo Fornazzieri, no GGN, quando diz que “a sensação de alivio pode ser enganosa e provocar novamente a arrogância no governo e a acomodação da inação política”.

“Dilma aproveitará esta oportunidade? Fará uma reforma ministerial? Apresentará um plano de reformas de longo prazo? Apresentará uma agenda para a retomada do crescimento? Sinalizará que está empenhada com o saneamento das contas públicas apresentando um corte consistente de gastos e a redução do número de ministérios? Mostrará que está comprometida com a justiça social, fazendo com que o ajuste fiscal, necessário, recaia com mais peso sobre os mais ricos? Dilma irá efetivamente dialogar com os movimentos sociais, com os sindicatos, com os empresários e com os partidos? Sinalizará a construção de uma agenda para o futuro com a oposição ao invés de ter que ajoelhar-se para pedir ajuda na hora do aperto? Ninguém sabe.”

Oferece-se a possibilidade política – embora ao lado de sérias impossibilidades econômicas – para que, então, façamos saber à imensa massa de brasileiros que não aderiu à aventura política, embora decepcionada com o desempenho (se é que se pode chamar assim) do Governo, o que somos e para onde queremos ir.

Isso não ser fará (apenas) com concessões, mas também com ousadia.
O povo jamais faltou àquilo que percebe ser seu, a seu favor, em seu benefício.
Não foi assim no “Mais Médicos”, a única resposta vitoriosa ao embrião desta situação que hoje vivemos, que são, inequivocamente, as manifestações de 2013?

Apenas e simplesmente esperar a borrasca da crise – e que longa crise vive, há tempos, a ordem econômica mundial! –  passe não é estratégia, é ilusão.
É esquecer da amarga frase do – agora fora de moda, com Joaquim Levy – economista John Maynard Keynes:

“A longo prazo, todos estaremos mortos”.

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