Tiros ao vivo


"Papai, suspeito bom é suspeito morto?"

Camilo Vannuchi, Brasil 247

- Papai, por que o moço atirou no outro moço?
- O moço estava tentando fugir, filho.
- E a gente atira em quem tenta fugir, papai?
- Não, filho. A gente não atira.
- Mas por que o moço atirou e a gente não atira?
- O moço é policial, filho.
- Ah, e policial atira em quem tenta fugir?
- Alguns atiram. Muitos, na verdade.
- Por que eles atiram, papai? Por que eles têm um revólver?

- Mais ou menos. Mesmo quem tem um revólver não deveria atirar. O revólver é usado para intimidar, para assustar os bandidos, entende?
- Entendo. E por que o policial não assustou o bandido em vez de atirar?
- Acho que o policial se assustou, filho.
- Policial atira quando se assusta, papai?
- Às vezes. Às vezes atira porque se assustou. Às vezes atira porque o outro moço também tem um revólver e pode atirar antes. Às vezes atira porque é assim que ensinam pra ele que é o certo.
- Atirar é o certo, papai?
- Não, filho. O certo é prender.
- E por que o jornalista falou que ele fez muito bem em atirar?
- Porque o jornalista acha certo policial atirar em vez de prender. Tem gente que acha isso, que bandido bom é bandido morto.
- Bandido morto é bom?
- É jeito de dizer, filho. Não é pra levar ao pé da letra. Parte do princípio, equivocado, de que nenhum bandido deveria estar vivo, porque todo bandido é mau.
- E tem bandido bom, papai?
- Tem, filho. Depende do que fez de errado, por exemplo. Nem todo mundo que comete crime é bandido. Tem muito criminoso que não forma bando, ou que nunca fez algo parecido antes. Tem gente que comete crime por roubar um pote de manteiga ou uma lata de atum, por exemplo. Ou porque precisa colocar comida na mesa. Ou porque se envolveu com quem não devia e agora precisa saldar uma dívida enorme. Tem gente que comete crime e que é um pai super querido, uma mãe super amorosa. Tem gente que comete crime e que a gente nem imagina, ou porque não paga os impostos que deveria, ou porque fuma um tipo de cigarro que é proibido, entende? Nem por isso eles deveriam estar mortos.
- Papai, o jornalista não sabe disso?
- Não sei se ele sabe. Acho que sabe, mas ele prefere falar que não sabe na televisão, porque acha que as pessoas que estão assistindo ao programa preferem que ele pense de um jeito diferente do que ele pensa.
- Mas papai, o moço da moto era um bandido mau ou um bandido bom?
- Não dá pra saber, filho. Ele poderia nem ser bandido. A gente só pode dizer que alguém é bandido depois que ele é julgado. Precisa investigar. E quem vai investigar é outro policial. Antes disso, ele é suspeito, alguém que pode ter cometido um crime ou não.
- Papai, suspeito bom é suspeito morto?
- De jeito nenhum, filho. Nem bandido bom é bandido morto, nem suspeito bom é suspeito morto. O melhor é que estejam todos vivos.
- E o que é certo fazer com bandido?
- Quem for bandido deve ser preso, como castigo pelo que fez e também para poder se arrepender e parar de cometer crimes quando recuperar a liberdade.
- Matar é crime, papai?
- É, filho.
- Se o policial matou aquele moço, ele cometeu um crime?
- Se ele foi obrigado a matar para não morrer, não. Mas se ele poderia não ter matado, é.
- Ele vai ser preso, papai?
- Acho que não, filho. Ele vai alegar que a vítima resistiu à prisão, o que nesse caso parece ser mesmo a verdade, já que ele estava fugindo, e o homicídio vai ser registrado como auto de resistência. Provavelmente, não vai acontecer nada com ele.
- Papai, policial é o homem que mata e que não é chamado de bandido, é isso?
- Mais ou menos. Quer dizer, não. Não é isso. Policial precisa reagir, até para nos proteger. O problema é que tem policial que reage de forma desproporcional, que atira para matar, muitas vezes com o respaldo e o estímulo do comando.
- E se o policial simplesmente quiser matar?
- Ele não pode fazer isso.
- Mas e se ele fizer.
- Ele estará cometendo um crime, que nem os bandidos.
- Papai, policial bom é policial morto?
- Não, filho.
- E jornalista, papai? Jornalista bom é jornalista morto.
- Olha, prefiro que você não pense dessa maneira.
Esta é uma obra de ficção. Os tiros disparados à queima-roupa por um policial contra um suspeito após perseguição em São Paulo são obras da realidade. As imagens capturadas pelas câmeras e exibidas ao vivo para todo o país também.
Cidade Alerta é um programa de televisão transmitido de segunda a sábado na TV Record, às 17h, horário apropriado para crianças e adolescentes. Parece obra de ficção, mas não é."

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