O Fla x Flu político atual não é contraproducente, muito pelo contrário

Francy Lisboa, GGN

"Jargões parecem ser a síntese do simplismo que busca explicar tudo na terra Brasilis. Há jargões econômicos: “pedaladas fiscais”; “pibinho”; “tempestade perfeita”, “dragão da inflação”; “tsunami”; “dólar derretendo”; “marolinha do Lula”; entre outros. Há jargões relacionados à segurança: “BB-BM: bandido bom é bandido morto”; “tá com pena ? Leva pra casa!”; “Direitos humanos para pessoas direitas”; etc. Bem tudo isso não é novidade para nós, não é mesmo?

Mas há um jargão que trata diretamente do ponto desse post: “Fla x Flu político”. Isso tem íntima relação com o surgimento da terceira via como profecia de Marina Silva que, na época pré-eleição de 2014, se julgava (não sei se ainda julga-se) capaz de arrebanhar os bons e impolutos da política, aqueles que gravitam acima do bem e do mal da humanidade como em uma linda roda de ciranda.

A relação entre a visão messiânica de Marina e o jargão Fla x Flu se dá pela visão dos emcimadomuristas (não necessariamente marinistas, mas pretensos seres acima das paixões) de que a polarização política entre odiadores do PT e não odiadores, também referida como Fla x Flu, é contraproducente para o país. Isso é repetido a torto e a direito por onze de cada dez análises, em especial na blogosfera dita progressista. Dizem eles: é uma guerra.

Sim, sem dúvida é uma guerra, Mas guerras são também apontadas por historiadores sérios, não aquele exonerado da UFSCAR, como motores de evolução da própria humanidade. É preciso conhecer o adversário para se traçar estratégias de combate ideológico, do contrário, haverá espaço para a turma do deixa disso entrar em cena com promessas de reconciliação de curto prazo: sebastianismo a toda prova.

No começo, ai tomemos como ponto de partida a posse do sapo barbudo, a distinção não era clara: pobres contra ricos, aspirantes a rico versos bolsistas federais sugadores de impostos dos aspirantes; o preconceito em relação às cotas versos o reconhecimento do passado escravista brasileiro. Isso tudo obra do anticristo Lula, segundo alguns líderes neopentecostais. Há quem diga que o Brasil estava melhor antes, não tinha essa divisão: ôôô inééércia de nós todos!

Sim, sim e sim. Não havia isso. A coisa foi ficando cada vez mais clara como em um ajuste de nitidez das antigas televisões. No contraste atual é evidente quem é quem nesse Brasil polarizado: o lado A, o lado B, e os “acima disso”. Valores cristão que, presumivelmente deveriam ser seguidos a risca, precisam ser mandados às favas para reduzir o tom de hipocrisia. A sugestão óbvia seria a convocação moralista para um novo Concílio de Niceia, uma espécie de Constituinte exclusiva, a fim de apagar pregações de perdão, amor um pelos outros, dar a outra face, entre outras coisas incomodas.  Seguindo essa racionalidade, daqui a pouco sobra até para o Natal. Afinal, é preciso aparar os contrapesos morais para que a bestialidade possa ser exercida sem arrependimentos.

De fato, a polarização ajudou a reduzir os mascaramentos do moralismo cristão que enreda a sociedade brasileira, mesmo aqueles que não se julgam cristãos. É ou não é um lado positivo da polarização? Saber quem joga contra os trabalhadores; quem não tem vergonha de dizer que sonegação não é corrupção; quem tem asco ao funcionalismo público; quem quer intervenção militar; quem quer fiscalizar o uso do ânus alheio; quem é a favor da “rápida resposta a sociedade” mesmo que isso implique eventuais erros; quem chama a morte de milhares de um lado e uma dúzia do outro de “guerra”; quem acha normal “arrogância petista de Zé Dirceu” seja tratada como crime tipificado em Lei; quem acha que mais direitos para domésticas é retrocesso; quem grita vai pra Cuba! Etc, etc, etc. Hoje, muitos de nós constatamos sermos amigos, ou abrigar em nossos círculos, bestas insensíveis outrora adormecidas. É ou não é?

Em brigas estúpidas de escolas os dois lados beligerantes engalfinha-se devido, como já dito, às mais estúpidas razões. De vez em quando, muito de vez em quando, a beligerância é interrompida pelo chamado lado do deixa disso, caracterizado por gestos e narrativa pertencentes a uma faixa etária que, sinceramente falando, ainda nem adentrou: tudo cena! Mas no caso do debate político atual, a cena deu lugar ao contraste claro: (1) petista Petralhas bolivarianos comedores de criancinhas versos (2) a frente conservadora com a proteção da bancada da bala alimentada pelo Agro e divinamente orientada pela bíblia de pentecostes. Tá tudo mais claro minha gente, graças à “tchulma” do PT, um dos lados do jargão Fla x Flu. Aquele jargão que muitos ainda insistem em dizer que não serviu para nada senão a barbárie. Sei..."

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