No Estadão, os “libertários” que pariram coxinhas


Fernando Brito, Tijolaço 

"Valmar Hupsel Filho e Pedro Venceslau, hoje, no Estadão, tocam num intrigante assunto que, a rigor, precisa ser aprofundado e mais bem analisado, agora que os fatos reais se sobrepuseram à “condescendência libertária” na análise do estopim dos movimentos de rua de 2013, que se estenderam, curioso, até o “não vai ter Copa” de 2014: Em dois anos, manifestações por tarifa zero dão lugar a coxinhas

A abertura da matéria coloca claramente tal questão:

“As passeatas contra o aumento da tarifa do transporte público lideradas pelo Movimento Passe Livre nas principais cidades brasileiras transformaram o mês de junho de 2013 no símbolo da retomada dos grandes protestos de rua no Brasil, após silêncio de mais de 20 anos. Dois anos depois, o legado das manifestações, que na origem foram lideradas por anarquistas, estudantes universitários e militantes de esquerda, foi a formação de uma nova geração de ativistas com perfil e bandeiras diametralmente opostas”.

Obvio que não quero dizer que os grupos de “negação da política” sejam todos ideologicamente coxinhas, porque não são. Há de tudo.

Mas, na prática, é inequívoco que a fecundação que fez parir coxinhas  – para muitos involuntária, reconheço – aconteceu ali.

Não quer dizer, também, que não se deva fazer manifestações ou que estas só possam ocorrer quando pró-governo. E muito menos que as tarifas de ônibus sejam socialmente justas, e não são.

Mas não eram apenas 20 centavos.


Era, com o proclamado “apoliticismo” – mais, a rejeição da política que, vimos depois, desborda para a rejeição das urnas e das escolhas populares –  a recriação de uma direita militante, como o Brasil não conhecia desde as marchadeiras da UDN em 1964 e logo depois, com as marotagens “voluntárias” como uma campanha de “voluntariado” chamada “Dê ouro para o bem do Brasil” em que as senhoras carolas perderam suas até então inamovíveis alianças e cordões.

Virou, naquele tempo, graças à mídia, falar do caráter direitista que assumiam aqueles atos. Mas e porcamente, era possível falar – e não muito – dos blacblocs  sua expressão mais imbecil. Lembro do quanto apanhei aqui quando falei no caricato Batman, que agora é seguidor de Jair Bolsonaro.

Tinha – e tem – também ali a opção preferencial pelo silêncio do Governo Dilma e do PT que, com imensa frequência esquecem que a ascensão pessoal que não é percebida como fruto de um avanço coletivo  se torna, mentalmente, resultado exclusivo do merecimento pessoal e não parte de um projeto nacional.

E claro, como catalisador deste processo uma articulação internacional dos fomentadores de crise da direita, sempre prontos a agir quando um paós opta por um projeto autônomo – ou mesmo semi-autônomo – de desenvolvimento.

 O que está acontecendo no Chile – este, como diria o José Simão, “no va a tener Cuepa” América – é para esclarecer até mesmo os mais ingênuos.
Radicalizar um processo político é uma arte de sensibilidade, onde o ingrediente fundamental é e a formação de uma percepção nacional sobre onde estão os entraves ao progresso e à justiça.

Não é pretender mandar a burguesia brasileira para Miami – até porque, mesmo quando aparece um bobalhão feito o Lobão para prometer, não cumpre – nem para pretender que ela possa ser uma aliada senão circunstancial e pontualmente.

O aliado de sempre, a força do povo brasileiro, porém, não pode deixar de ouvir e ouvir que se faz uma mudança e saber que a mudança que se faz é por ele, para ele e com ele.

E sem enfrentar a polêmica isso não se fará."

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