Nenhuma estatística, muita opinião


Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa

"O fim de semana mostrou novo esforço dos principais diários de circulação nacional para consolidar seu crescimento no mercado que sempre pertenceu às revistas de informação. Veja, Época e IstoÉ formam um trio de publicações previsíveis, com capas que poderiam compartilhar o mesmo logotipo, e CartaCapital se ressente do baixo poder de fogo para reportagens mais alentadas mas se destaca por oferecer opiniões mais diversificadas do que suas concorrentes.

Os jornais claramente canibalizam o mercado das revistas. Com sua força de trabalho reduzida e funcionando à base de plantonistas nos fins de semana, os jornais têm decidir entre uma agenda menor, com mais profundidade, e cobrir um leque mais amplo de assuntos, com a consequente superficialidade.
Como foi oficialmente declarado, semana passada, pela Associação Mundial de Jornais e Editores, os diários estão optando por dedicar suas páginas a um conteúdo mais denso – mas menos abrangente – e usar as telas para tentar cobrir o que não couber no papel. Como isso não pode ser feito no dia a dia, pratica-se o novo modelo nos fins de semana, o que afeta o mercado de revistas.

Mas a orientação vertical impõe a mesma visão de mundo a praticamente toda a mídia tradicional. O leitor que pode ler três jornais e três revistas no fim de semana – se não tiver em mãos a CartaCapital, que costuma oferecer uma visão diferenciada da política e da economia – pode imaginar que está manipulando apenas um título, tal a homogeneidade das abordagens.

Ainda assim, para quem deseja mais do que puro entretenimento, os diários já competem, numa relação custo-benefício, com as revistas que chegam aos leitores na sexta-feira ou no sábado.

No domingo (7/6), o Globo investiu num levantamento feito em dados do Tribunal Superior Eleitoral para informar que mais de 60% dos governantes nas três instâncias da República foram reeleitos desde 1998. O Estado de S. Paulo observa que a disputa com o Planalto torna a Câmara dos Deputados mais ativa, e faz uma radiografia da “crise de identidade” do PSDB. Já a Folha de S. Paulo alerta que o Brasil discute a redução da maioridade sem ter dados para fundamentar o debate.

Estratégias sem fundamento

A reportagem do Globo tenta oferecer uma análise equilibrada entre o uso do poder pelos detentores de cargos executivos para se reeleger e o problema criado com a descontinuidade de governos eficientes, mas afetados por circunstâncias negativas que podem definir o resultado das urnas. Faltou falar da influência da própria mídia, que pode levar muitos eleitores a determinar a interrupção de projetos importantes que demandam mais do que um mandato para amadurecer.

O Estado de S. Paulo apresenta um balanço curioso da produtividade da Câmara dos Deputados, cujo presidente, Eduardo Cunha, se confronta com o poder Executivo e, com seu protagonismo, acaba acelerando a agenda do Parlamento, para o bem e para o mal. O diário paulista tem o cuidado de observar que algumas votações da Câmara, nessa intensa atividade, produzem decisões que juristas consideram inconstitucionais, como a regulamentação de doações eleitorais de empresas.

A Folha e S. Paulo oferece a seus leitores um ponto instigante para reflexão, ao destacar que o debate sobre a redução da maioridade penal, movido pela decisão do presidente da Câmara de levar a votação um projeto que tramita há mais de dez anos, é desautorizado pela falta de estatísticas oficiais que fundamentem as diversas opiniões a respeito. O jornal informa que o governo federal usa dados atribuídos ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública para afirmar que apenas 0,5% dos crimes de homicídio são de autoria de menores de 18 anos. No entanto, a entidade negou ter produzido esse indicador.

Então, os repórteres dedicaram dois meses, entre outras tarefas, a garimpar os dados regionais, para compor um mapa nacional da violência associada à delinquência juvenil. Mas nas unidades da Federação os números são imprecisos e não permitem formar um quadro conclusivo sobre o tema. Mesmo São Paulo e Rio de Janeiro, dois dos Estados mais populosos do Brasil, não fizeram esse levantamento nos últimos dez anos.

A pergunta que não quer calar: como a imprensa pode levar a sério as estratégias de segurança dos governos estaduais, se eles não possuem essas estatísticas básicas? A conclusão que o leitor tira: as opiniões são formadas pela visão de mundo de cada um, influenciada por aquilo que o cidadão lê por aí, ouve no rádio ou assiste na televisão.

Você é a informação que você consome."

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