Folha de S. Paulo não muda editorial, blinda-se


Márcio A M Gomes, GGN

"A chave do dilema sofrido pela fsp é o seguinte: como continuar a ser politicamente conservador, mas liberal nos costumes? É o dilema que vive também parte da sociedade brasileira. No mundo todo, o advento da internet favoreceu muito a luta pelos direitos civis das minorias. Os pleitos e casos de violação de direitos têm repercussão imediata nos tribunais das redes sociais.

No Brasil, essa bandeira sempre foi da esquerda, pois a direita sempre conviveu bem com os gays em particular, mas nunca em público. Quem tivesse uma posição mais assertiva, teria que buscar outro nicho político, como foi o caso, por exemplo, de Marta Suplicy.

O caso de São Paulo é emblemático. As duas fases da mistura conservadorismo político e liberalidade nos costumes sempre conviveram muito bem naquele caldeirão étnico e cultural. Não é à toa a identificação imaginária que o paulista tem com os americanos do norte, onde o máximo do progressismo político é ser liberal, como se diz por lá. SP não mudou muito politicamente: continua sendo governada pelo PSDB, que era uma espécie de congregação de déspotas esclarecidos, antes da cruzada santa de Serra e do moralismo udenista do Aécio. O PSDB de vinte anos atrás representava bem o espírito paulista: a nobreza com algum verniz intelectual, ligeiramente progressista, mas não tanto.

Se o projeto de vinte anos do Sérgio Mota tivesse vingado, a fsp estaria muito confortável, representando seu papel de defensora da pluralidade e fiscalizadora equânime do poder público. O governo era dos seus, e com isso dava pra conviver, e ainda dar alguma chance ao jornalismo verdadeiro.

Mas aí vieram os governos do PT. Com eles, progressismo de fato, protagonismo dos excluídos, democratização de espaços públicos, etc. Quanto mal-estar isso causou e vem causando, sentimento que evoluiu ao ódio rapidamente. Mas esse ódio ainda era privado. O conservadorismo sempre atuou nos bastidores, nas redações dos jornais, inclusive. Sempre teve um misto de vergonha e hipocrisia para se mostrar sem disfarces.

É nesse ponto que a grande imprensa teve papel fundamental: passou a incentivar e dar voz a esse ódio, com cobertura jornalística francamente parcial e um exército de opinadores muito bem remunerados, defendendo sua visão de mundo segregacionista, que é também a do patrão. Havia um mal maior a ser combatido e a coisa toda virou um vale-tudo. Nessa hora, apareceu o verdadeiro espírito da folha: somos conservadores politicamente. O chato mesmo pro Otavinho é que agora não dá mais pra ser as duas coisas, pois as fases da mistura se separaram. É muito nítido esse movimento na sociedade brasileira, local ou globalmente. O conservador nos costumes embarcando no conservadorismo político e, do outro lado, partidos menores como PSOL ganhando musculatura por sua agenda avançada nos costumes. Cresce a tendência do conservadorismo sem predicados, ou você é conservador ou não é. Por isso é que a fsp apanha dos dois lados do espectro político.

Assim, não enxergo nesse editorial nenhuma mudança de rumo da fsp. Ao contrário, ela está onde sempre esteve. E tenta, a meu ver, se blindar.

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