Editores do Fantástico: não estraguem mais a vida dessas crianças


Luis Nassif, GGN

"Esta manhã a menina Estefania acordou em Indaiatuba, ao lado de sua mãe Letícia e de seu irmão David.

Foi uma batalha insana, tendo de um lado famílias de Indaiatuba e Campinas candidatas à adoção; no outro, a maior emissora do país, empenhada em promover uma novela que falava sobre tráfico de pessoas. E, no meio, crianças desamparadas, sendo tratadas feito joguetes.

As crianças estavam sob a guarda provisória de famílias paulistas, aguardando o final dos procedimentos legais de adoção, quando foram atropeladas por um show de horrores, na forma de jornalismo justiceiro.

Era nítida a incapacidade de serem criadas pelos pais biológicos, não devido à pobreza, mas à completa desestruturação familiar. Recolhidas pelo Conselho Tutelar de Monte Santo, foram entregues provisoriamente a famílias paulistas, para poupá-las dos maus tratos de uma mãe incapacitada e um companheiro claramente desequilibrado.

Teve início um jogo oportunista poucas vezes visto, onde se aliaram contra o instituto da adoção do ideologismo mais canhestro ao conservadorismo mais entranhado.

Do lado ideológico, uma Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, despreparada, considerando a adoção uma forma de exploração capitalista que expropria o pobre do seu último bem, os filhos, estimulada por ONGs politicamente ligadas a ela, pretendendo aparelhar os Conselhos Tutelares.

Do lado conservador, a exploração histórica que o Fantástico faz com adoções.

Quem não se lembra, nos anos 90, o carnaval que o programa fazia com malucos que ficavam olhando para o céu, observando os aviões e supondo que em algum deles estariam os pais biológicos. Ou a desumanização total de Vilma, a senhora que sequestrou uma criança recém-nascida - e, portanto, tornou-se criminosa - mas cuja relação com o filho foi totalmente escondida para não prejudicar a imagem de "monstro" com que foi crucificada. Ou o caso da criança paranaense adotada por pais israelenses, que foi trazida de volta ao país, sob o som do Hino Nacional, e depois abandonada à sua própria sorte. A dor da gente não sai no jornal, já dizia o poeta.

Essa parceria escabrosa tratou as crianças como meros objetos de luta política e de audiência. Já integradas às novas famílias, foram arrancadas a golpe de polícia e enviadas de volta ao lar que nunca existiu.

A Globo escondeu a real situação das crianças, romantizou a figura de um pai desequilibrado, transformou um juiz suspeitíssimo em justiceiro, permitindo até que fosse explorada a ideia de ele estar sendo ameaçado por quadrilhas de seqüestradores de crianças. Na pele da "quadrilha", casais classe média de São Paulo, dispostos a tratar como filhos crianças sofridas e abandonadas. Algumas das senhoras tiveram problemas graves de saúde com a criminalização a quem foram submetidas pelos editores do Fantástico.

O poder de monopólio da Globo é tão expressivo, que a farsa mal foi arranhada por reportagens feitas de jornalismo puro por emissoras concorrentes, mostrando a real situaçãoi das crianças. A ponto do Instituto Vladimir Herzog ter premiado a farsa com seu prêmio maior, de direitos humanos.

A pequena Estefania voltou para casa, em companhia da sua mãe Leticia e do irmão David, que chegou ao lar poucos meses antes da sua chegada. Os pais biológicos entregaram voluntariamente os filhos, sabendo de sua total incapacidade de lhes proporcionar um mínimo de vida condigna. Tudo está sendo devidamente conduzido pelos canais legais.

Que, desta vez, os editores do Fantástico tenham um mínimo de humanidade para não prosseguir com o show. Não devolvam as crianças ao inferno do sensacionalismo em que foram jogadas por vocês.



O Jornal GGN fez um amplo levantamento sobre o assunto, com matérias, depoimentos e documentos. Todo o material está disponível em O caso do tráfico de bebês em Monte Santo."

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