Dilma, a senhora não está num país “normal”. Pedale com mais força


Fernando Brito, Tijolaço 

"A entrevista ciclística da repórter Tania Malheiros com a Presidenta Dilma Rousseff é consistente em tudo o que o que se diz sobre as ações de Governo.
Mas sofre de um mal recorrente – ou será permanente? – de tratar a realidade política brasileira como se fosse tão lisa quanto aquelas pistas de Brasília junto ao Palácio da Alvorada.

E não é, é uma pista de obstáculos que, se exige sempre persistência, requer, muitas vezes, ousadia, claro que com a dose de cuidados que o cargo de Presidente  impõe.

Hoje, graças a uma imprensa engajada na demolição de um projeto nacionalista, mais parece mesmo um campo bombardeado e, ainda, cheio de minas por toda parte.

Não adianta apenas ser equilibrado e evitar a polêmica.

Evitar as desnecessárias, sim, mas há aquelas que precisam ser travadas para que não se perca, como tanto já se perdeu, a identidade diante da população.

É verdade que a Dilma reafirmou, em quase tudo, políticas corretas.

Mas é preciso dizer claramente que o que é ruim, é ruim, mesmo sendo necessário.

E para que é necessário.

Mais, é preciso que se aponte a hipocrisia de quem fez mais que ajuste, mas um criminoso desmonte do Estado brasileiro, entregando tudo, desmontando os serviços públicos e arruinando o país.

E que agora posam de bonzinhos, reclamando de tudo o que fizeram por opção e não compelidos por dificuldades: juros, desemprego, recessão…

Veja o caso do fator previdenciário, que criaram de uma vez e agora querem que de uma vez só seja retirado, embora tenha de ser, sim, abolido para dar lugar a formas que não prejudique quem trabalha desde muito cedo. Como era, aliás a fórmula inicial de Fernando Henrique, a da idade mínima.

Que se diga que o Governo enfrenta uma campanha que não o atinge, apenas, mas atinge o país.

O asfalto da política é traiçoeiro, íngreme e esburacado, Presidenta.
Ponha força no pedal, porque mesmo que não haja risco de cair, precisamos subir de novo as colinas, cada vez maiores.

Olhando para a frente e avançando.

Se não for assim, basta uma bicicleta ergométrica, onde a gente pedala e não vai a lugar nenhum.

Os tópicos da entrevista, no Estadão:

As críticas do PT a Levy
“Todo mundo aguenta. Eu acho injustas (as críticas a Levy) porque não é responsabilidade exclusiva dele. Não se pode fazer isso, criar um judas. Isso é mais fácil. É bem típico e uma forma errada de resolver o problema.” 

Fator previdenciário
“Não falo (sobre veto). A proposta de 85/95 (que dá aposentadoria integral a mulheres cuja soma da idade com o tempo de contribuição for 85 anos e, no caso de homens, 95) causa problemas para a Previdência e precisa ser alterada. A proposta de ser progressiva é viável. Mas ainda estamos estudando. Tem de ter mudanças.” 

Desoneração
“Toda esta crise (externa) levou a que não tenhamos equilíbrio fiscal suficiente para uma política fiscal expansiva e, por isso, vamos fazer o ajuste, que tem de ser forte o suficiente para permitir que a gente volte a crescer. Não pode ser nem excessivo, nem limitado. Por isso a gente insiste com o Congresso que a lei de desoneração seja aprovada. Isso é fundamental para o País porque reduz perdas fiscais.” 

Ajuste fiscal
“A retomada do crescimento começa com o ajuste e se complementa com medidas que vamos anunciar até agosto. Tem o Programa de Investimento em Logística (PIL, que será divulgado amanhã) e até o dia 15 lançamos o Plano Safra da Agricultura Familiar. Depois vêm o Programa Nacional de Exportação e o Minha Casa Minha Vida 3. Além disso, a Petrobrás deve concluir seu plano de investimentos, com horizonte até mais cinco anos, com foco em exploração e produção. No Plano de Logística, tem quatro aeroportos, todos os portos, aeroporto regional. A maioria é de obras públicas, porque não fica de pé pelo PIL. A ferrovia bioceânica (transoceânica) vai fazer parte do pacote, mas estamos concluindo os estudos e não temos noção integral ainda (do valor da obra), porque tem a parte brasileira e a peruana. Mas sem sombra de dúvida terá uma parte de financiamento chinês e vai ter de ser feito um leilão.” 

Relação com o Congresso
“Vocês falam muito que a relação está difícil, mas temos tido um processo de discussão bastante efetivo e eu não diria que é tão diferente do passado. Até agora, não tivemos uma derrota do tamanho daquela da CPMF (extinta em 2007), a mais grave derrota dos últimos anos para o governo. O governo não está a reboque do Congresso. Pelo contrário. Temos relação independente e harmoniosa. Se você for olhar, o Congresso, até agora, não se caracterizou por dar uma derrota ao governo. Pode pautar algumas questões que nós não concordamos. Agora, isso é da democracia.”

Crise na Fifa
“Se tem problema na CBF, na Fifa, que comece a ser investigado. Quem tiver de ser punido, que seja. E que se coloque de forma clara que estes organismos têm de ser transparentes e prestar contas, porque mexem com volume grande de dinheiro. Não vejo motivo (para chegar à Copa no Brasil). O Brasil não é um país qualquer em matéria de futebol. Não precisamos pagar ninguém para trazer a Copa, que foi a mais lucrativa que se tem notícia. Por aí eu não acho que é a questão, não. Mas que tem de investigar todas as decorrências e as relações entre a Fifa e todas as Copas, acho que tem. Todas, sem exceção.”

Renúncia fiscal na Copa
“Todos os países deram. Não é esse dinheiro que teve problema. É a venda de publicidade e de transmissão, onde estão os maiores volumes. Quem utilizou indevidamente os recursos, pegou dinheiro que poderia melhorar o futebol do mundo, inclusive o nosso, e usou para seus próprios fins tem de ser investigado.” 

Petrobras
“Nós viramos uma página. A imagem da Petrobrás vai depender muito da vida dela daqui pra frente. A Petrobrás recuperou a capacidade de produzir. Não que estivesse comprometida, mas não é fácil produzir pré­sal. Este ano a Petrobrás conseguiu duas coisas: publicou o balanço após os problemas gravíssimos que a (Operação) Lava Jato levantou. Mas uma empresa que tem mais de 90 mil funcionários, que ganhou o prêmio na OTC (Offshore Technology Conference, entidade do setor de energia) por inovação, pela capacidade de extrair de áreas profundas, não está comprometida por cinco, seis, sete, ou sei lá quantos anos. A Petrobrás tem hoje todas as condições, mas, obviamente, o mercado precisa ajudar.” 

Lei das Estatais
“Eles (presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB) têm todo o direito de pedir a informação quantas vezes quiserem. Mas eles não estão querendo nomear os presidentes das estatais, porque seria interferência em atribuições do Executivo. Fiscalização é praxe. Qualquer um tem de ir dar explicação no Congresso, não tem problema.” 

Terceirização
“Tem de regulamentar, mas não estou acreditando que vão votar a terceirização agora, porque no Senado não é a mesma coisa que na Câmara. Eu não acho que é tão fácil. Eu não sou contra a terceirização. Você tem mais de 12 milhões de trabalhadores terceirizados que precisam ter seus direitos protegidos. Porém, tem de cuidar para não acabar com a diferença entre atividade­meio e atividade­fim, porque aí você ‘pejotiza’ e informaliza o mercado de trabalho, que eu acho que é a grande característica ruim da lei.” 

Redução da maioridade penal
“Eu não sou a favor por um motivo muito simples: onde ocorreu, ficou claro que isso não resultava em proteção aos jovens. Defendemos um projeto de lei no qual puniríamos fortemente o adulto da quadrilha que usasse criança e adolescente como escudo. E o crime hediondo praticado por menor tem de ter tratamento diferenciado. As medidas socioeducativas têm de ser prolongadas.

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