Congresso do PT e o legado de Dilma


Altamiro Borges, Blog do Miro

"Após muita especulação da mídia, a presidenta Dilma Rousseff confirmou que participará do 5º Congresso Nacional do PT, que ocorre em Salvador (BA) de 11 a 13 de junho. A decisão é sábia, já que cresce o descontentamento na base petista sobre os rumos do governo neste segundo mandato. Além das críticas à ausência do enfrentamento político – o que mostra que a tal “batalha da comunicação” proposta em janeiro pelo Palácio do Planalto ainda não foi deflagrada –, há também fortes temores sobre o impacto das medidas de ajuste fiscal adotadas sob o tacão do ministro ortodoxo Joaquim Levy. Os dados mais recentes da economia são preocupantes e podem corroer ainda mais a popularidade da presidenta Dilma Rousseff e prejudicar os projetos eleitorais do PT.

No final de maio foram divulgados os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano. Eles apontaram retração de 1,6% em relação a igual período de 2014 e de 0,2% na comparação com o trimestre anterior. Mantido o atual cenário, com os drásticos cortes nos gastos públicos e a retração dos investimentos privados, a tendência é que o PIB sofra uma queda brusca em 2015. Isto confirmaria que o país ingressou numa nova fase de recessão, com os seus trágicos efeitos para a geração de emprego e renda. Vários indicadores confirmam o recuo: houve queda de 1,5% no consumo das famílias no primeiro trimestre. A retração do consumo impacta a produção. Em abril foram ceifados 98 mil empregos formais; várias empresas também deram férias coletivas.

Na comparação com o restante do mundo, o PIB brasileiro ficou em 31º no ranking de 33 países pesquisados pela agência Austin Rating. O Brasil só superou as economias da Rússia e Ucrânia, que tiveram resultados negativos em 1,9% e 17,6% no primeiro trimestre do ano na comparação anual, respectivamente. “A Ucrânia ainda sofre com os efeitos negativos da severa guerra vivida com a Rússia neste ano. Esta última ainda contabiliza problemas como a queda do preço do barril de petróleo, forte desvalorização do rublo, elevada taxa de juros, fortes sanções ocidentais e conflitos políticos após a morte de Boris Nemtsov, importante líder de oposição ao governo de Vladimir Putin”, observa Alex Agostini, economista-chefe desta instituição dos agiotas financeiros.

Os ajustes e a tática

A combinação da política monetária restritiva – constantes altas da taxa básica de juros (Selic) – com a política fiscal contracionista – contingenciamento de R$ 69,9 bilhões anunciados por Joaquim Levy – ajuda a entender este quadro negativo. Diante do anúncio destes resultados, o ministro da Fazenda enrolou: “O retrato que o IBGE publicou é aquilo que a gente já sabia. Havia incerteza com o rumo da economia, se ia falta água e energia, se a Petrobras ia publicar seu balanço. Isto afetou a atividade econômica. De lá para cá, a confiança mudou e vencemos os desafios mais imediatos... É importante mudar e fazer o ajuste. Parte já foi votada no Congresso, mas há outros desafios. O governo está tomando medidas importantes para retomar o fôlego. Há muita coisa a ser feita”.

Já a presidenta Dilma Rousseff tenta aparentar calma e afirma que os ajustes “são táticos”, visando salvar as contas públicas. Ela garante que uma nova fase de crescimento já estaria no horizonte. O problema é que ninguém – nem mesmo na militância petista – enxerga qualquer melhoria no próximo período. Daí a expectativa do congresso do PT de que o governo dê uma guinada na sua orientação, apresentando uma pauta positiva de desenvolvimento da economia e de novos avanços nas áreas sociais. A decisão cabe à presidenta reeleita, que parece ouvir as críticas, mas não escutar as reclamações e propostas concretas. Dilma Rousseff deverá definir qual o legado deixará para as futuras batalhas – inclusive para os decisivos embates eleitorais de 2016 e 2018."

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