Como a Folha, por medo da Globo, perdeu a chance de investigar a corrupção no futebol

Teixeira agia movido a propinas
Paulo Nogueira, DCM

A Folha é engraçada.

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Diz, acusatória, que a PF abriu 13 inquéritos contra a CBF em 15 anos, e nenhum deles deu em nada.

Vaias para a PF, portanto.

Mas e a Folha, um jornal a serviço do Brasil? O que ela fez? Promoveu uma única investigação sobre a CBF?

E chances não faltaram. Faltou coragem de mexer num universo, o da CBF, em que um dos protagonistas é a Globo.

Todo mundo no Brasil morre de medo da Globo, do governo às demais empresas de mídia.

É a razão pela qual a Globo faz o que quer, e escapa mesmo de sonegações fartamente documentadas.

Chances para a Folha não faltaram.

Os arquivos provam. Uma notícia da Folha de dezembro de 2006 – resgatada e posta para circular nos últimos dias, depois do escândalo da Fifa – tinha o seguinte título: “Globo paga menos e leva dois Mundiais.”

O texto dava as cifras. A Globo pagou 100 milhões de dólares pela Copa de 2010 e 120 milhões pela de 2014.

O extraordinário, aí, é que a Record foi preterida com uma oferta de 180 milhões de dólares por Copa. Isso daria, portanto, 360 milhões de dólares, contra os 220 milhões da Globo.

Vistas as coisas hoje, é fácil entender o milagre. Na época da decisão, e da matéria da Folha, Ricardo Teixeira e João Havelange dominavam a CBF e eram influentes na Fifa.

Uma hipótese benevolente é acreditar que a Globo levou todas pela voz de Galvão, ou coisa parecida.

Mas, como disse Wellington, quem acredita nisso acredita em tudo.
Habitualmente tão desconfiada quando se trata do PT, a Folha publicou o seguinte.

“A Folha apurou que a Fifa levou em consideração não apenas as propostas financeiras.”

É aí que entra a voz de Galvão, ou coisa do gênero. Ou propinas.

Mesmo um admirador fervoroso da Folha há de convir que foi miserável a apuração do jornal do estranho caso da concorrência vencida pela pior proposta.

O jornal deveria pedir desculpas a seus leitores, mas não.

Em sua coluna de ontem, a ombudsman tocou no escândalo da Fifa, em outro contexto, naturalmente.

Ela criticava uma manchete sobre o episódio porque tomara o lugar da derrota do Distritão.

O secretário de redação, Sérgio Dávila, não se rendeu.

Disse que a escolha pela Fifa se devia à tradição da Folha de cobertura “crítica” do mundo do futebol, “inigualável” no Brasil.

De novo: a Folha aponta para a PF, no fracasso em investigar a corrupção na CBF, quando deveria olhar para o próprio espelho.

Em seu marketing, o jornal apregoa não ter o rabo preso com ninguém. Poderia acrescentar: exceto com a Globo."

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