As multinacionais avançam sobre a mídia brasileira

Luis Nassif, GGN

"Em 4 de dezembro de 2010, o grupo Estadão vendeu à Globo os 50% que detinha de capital da Zap, um portal de classificados na Internet. A alegação da diretoria do jornal foi a de “focar na nossa marca principal, levando a reputação e imagem também para as transações digitais”.

Hoje, como parte das comemorações de 140 anos, o jornal anunciou a compra de uma startup para negócios imobiliários, um fórum de debates sobre as tendências do setor e o Prêmio Desafio Estadão, para as melhores campanhas publicitárias veiculadas no jornal.

E mais não disse. E mais não fez.

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Até a década de 90, o Estadão era absoluto nos classificados e na publicidade de imóveis, assim como o JT nos classificados de automóveis. A Folha de S. Paulo acompanhava de longe nos imóveis e o Diário de São Paulo o mercado de automóveis usados.

Hoje em dia, há uma multiplicidade de sites de classificados e as próprias imobiliárias montaram seus próprios sites.

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Nos Estados Unidos, os grupos locais perderam para a Internet os classificados e as campanhas nacionais.

Não é a maior ameaça que paira sobre os grupos nacionais.

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Na TV, uma das âncoras de audiência, as transmissões esportivas, já foram invadidas por grupos internacionais.

Estudo divulgado no próprio jornal pela colunista de TV, Cristina Padiglione, mostra que grandes grupos internacionais passaram a dominar os canais esportivos nos principais países da América Latina. Apenas no Brasil e no Chile o líder ainda é nacional, respectivamente o SportTV (Globo) e o CDF Premium.

Todos os demais canais esportivos foram superados pelos novos entrantes, especialmente a Fox Sports e a ESPN. 

Mais que isso: apenas no Brasil e na Colômbia, o canal de esportes local está entre as dez maiores audiências da TV a cabo. 

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É questão de tempo para que o esporte na TV aberta seja atropelado. O grupo Globo tem R$ 16,2 bilhões de receita por ano. Seus competidores são a News Corp, que controla a Fox, a ABC Disney, dona da ESPN, e a Time Warner, que adquiriu o Esporte Interativo e a exclusividade da próxima Liga dos Campeões, todos muito maiores  

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No pós-guerra, a estratégia de internacionalização dos principais grupos norte-americanos se dava em cima de associações ou parcerias com grupos nacionais. A TV aberta, exigindo influência política para a obtenção de concessões, e a legislação sobre capital estrangeiro impediam voos autônomos. 

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Em tempos de Internet e da TV a cabo caíram as barreiras de entrada.
Hoje em dia, grupos estrangeiros como a BBC, Reuters, Bloomberg e El País já competem de igual para igual com os grupos nacionais e produzem um jornalismo imensamente superior àquele desenvolvido pelos grupos brasileiros nos últimos anos. NewCorp, que controla a Fox, Disney, que controla a ESPN, e Time Warner avançam cada vez mais, atropelando as relações históricas da Globo com a  FIFA e a CBF. 

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Essa estratégia de internacionalização foi pensada anos atrás. Agora, outras referências mundiais, como The New York Times, Financial Times e outros começam a se expandir para além de seus respectivos mercados e em breve entrarão na Internet com edições em português..

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É apenas uma ameaça a mais, em uma selva onde já coabitam tigres e leões que atendem pelo nome de Google e Facebook."

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