As babás usam branco para continuar invisíveis

Enquanto isso, no clube Pinheiros
Marcos Sacramento, DCM

"Um famoso experimento social de um pesquisador da USP constatou que os uniformes de profissões modestas e estigmatizadas como gari ou auxiliar de serviços gerais transformam esses trabalhadores em seres invisíveis.

O mesmo não acontece com o uniforme branco das babás, pelo menos para a promotora de Justiça Beatriz Helena Budin Fonseca, que abriu um inquérito civil contra o Clube Pinheiros depois de receber a denúncia de que a agremiação paulistana obriga as babás que acompanham sócios a usarem uniforme branco.

Outros clubes da capital paulista devem tomar a mesma enquadrada.

“Ao exigir o uso de determinada roupa pelas babás, o clube pretende marcar as pessoas que estão no local, circulando entre os sócios, mas que pertencem a outra classe social”, explicou a promotora em entrevista à BBC Brasil.

O uniforme das babás, neste caso, é a antítese do uniforme laranja dos garis ou das vestimentas cinzas ou azuladas das equipes de limpeza de escritórios ou condomínios. Ele destaca a trabalhadora no ambiente e mostra que a moça de pele escura e cabelo crespos não tem grau de parentesco com a criança branquinha e de cabelos lisos que ela acompanha.

As vestes brancas das profissionais também servem de sinal de status para quem as emprega. Em um país onde a renda média da população é de R$ 2.104,16, ter condições de manter uma funcionária para cuidar das crianças é privilégio de poucos. Considerando o pagamento de um salário mínimo de R$ 788,00 e os benefícios previstos pela legislação trabalhista, as despesas com uma babá partem de R$ 959,30 por mês.

Para a pequena parcela da população que se preocupa mais com o vizinho do que com as qualidades mecânicas ao escolher um carro, paga quantias de três dígitos por camisas gola polo com bichinhos bordados ou de quatro dígitos por uma bolsa de mão, terceirizar a criação dos filhos por meio dos serviços de uma babá também entra na cota da ostentação.

Mas não basta só a serviçal, é preciso que ela seja diferenciada, como essa turma gosta de dizer. É aí que entra o uniforme, perfeito se for impecavelmente branco. Coisa de sonho, do universo classe média glamoroso das novelas do Manoel Carlos."

Um comentário:

Anônimo disse...

Que texto ein?
Ótimo.Não pare.