Aumentos para o Judiciário são um esculacho


Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

Caros leitores,

poucas vezes na história deste blog fui tão criticado por escrever um texto como o publicado abaixo. E com toda razão, como pude concluir, depois de ler todos os comentários enviados por servidores do Judiciário. Eles argumentam, basicamente, que não se pode colocar no mesmo Balaio a situação deles, que estão há dez anos sem ter reajuste de salário e vivem com dificuldades, e os privilégios dos magistrados relatados no post.

São duas realidades bem diferentes. Errei ao não me informar melhor sobre a situação do funcionalismo de carreira, que não usa toga e até hoje não tem uma data-base para a reposição dos seus salários, de acordo com a inflação do período, como a maioria dos outros trabalhadores.

Peço desculpas a eles e aos demais leitores e recomendo que leiam os depoimentos destes servidores publicados na área de comentários, mostrando o outro lado da medalha. Internet é bom por causa disso: aqui, neste espaço democrático, quando erramos, podemos fazer as correções necessárias. Ninguém é dono da verdade.
Abraços,

Ricardo Kotscho
 
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Já começam a me faltar palavras para definir o que está acontecendo nas nossas instituições. Só mesmo procurando no dicionário para encontrar a expressão certa capaz de explicar a farra dos aumentos no Judiciário, em plena temporada de ajuste fiscal para cortar gastos públicos e salvar o país da quebradeira: esculacho.

Um dos significados para a palavra, segundo o Dicionário do Aurélio, é "grande confusão". Ou não é isso que estamos vendo? Na verdade, trata-se de um tapa na cara da população, uma ofensa para todos nós que estamos com nossos salários e empregos ameaçados. Vale para tudo o que andam produzindo nos últimos tempos, em todas as esferas e instâncias dos três poderes.

Por exemplo: a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou nesta quarta-feira regime de urgência para que o aumento salarial de 59,49%, em média, a ser pago em seis parcelas até 2017, seja concedido logo aos servidores do Judiciário, mandando a decisão diretamente para o plenário. Eles têm pressa. Isto vai nos custar mais R$ 25,7 bilhões nos próximos quatro anos. O problema é que o país não tem esse dinheiro.

Veja agora a justificativa do presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski:

"Nós precisamos sempre de reajuste. Quem é que não precisa pagar o supermercado, já que houve um aumento do preço dos produtos?".

Que maravilha de pergunta! Cheguei a ficar comovido. Alguém já encontrou o supremo magistrado numa fila de supermercado? Faz pouco tempo, também preocupado com a sobrevivência dos seus colegas de toga, outro ministro do STF, Luiz Fux, como lembrou o colunista Bernardo Mello Franco na Folha, concedeu um auxílio-moradia de módicos R$ 4.300 a todos os juízes do país.

Eles estão conseguindo se superar. Feliz com a prebenda, o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, José Roberto Nalini, explicou, falando sério:

"O auxílio foi um disfarce para aumentar um pouquinho. E até para fazer com que o juiz fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC".

Folgo em saber. E nós, como fazemos? Como se diz no popular, tudo bem, vocês venceram, mas não precisa esculachar.

No mesmo dia, a Câmara presidida por Eduardo Cunha, para não ficar fora da farra geral, aprovou a "emenda do jabuti", que autorizou a construção de mais um anexo para os senhores deputados, com direito a um belo shopping e tudo, orçado em R$ 1 bilhão. Segundo Cunha, será uma parceria público-privada a responsável pela obra. Se for igual ao que fizeram nas PPPs da Copa no Brasil, o público vai entrar com o dinheiro, o privado fica com o lucro da construção e nós pagamos a conta dos elefantes brancos.

Vou ficando por aqui porque, para onde você olha, é tudo a mesma sopa, não cansa de repetir o Mino Carta. Não quero estragar o dia de ninguém. A Justiça pode ser cega, mas quando se trata de olhar os próprios interesses, eles enxergam muito bem, com a ajuda das excelências parlamentares do outro lado da Praça dos Três Poderes. Pobre Brasil."

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