Meu pai, um CLT terceirizado


"Num país que debate o projeto de lei 4330, o drama da família de um cegonheiro de São Paulo ajuda a entender o mundo de quem que só pode sonhar com direitos trabalhistas (*)

Paulo Moreira Leite, Blog: Paulo Moreira Leite

Os homens da minha família criaram rugas e viram a barba crescer em um pequeno espelho do retrovisor de um caminhão. Meu pai, irmão, tios e primos são cegonheiros, motoristas que transportam carros. Esta profissão foi passada de geração em geração. Mala pronta, caminhão carregado e a cada despedida para a viagem, a incerteza da volta. Estradas mal sinalizadas, esburacadas, longas horas dirigindo uma carreta de 22 metros carregada com onze carros, portanto, uma carga valiosa; risco de assalto, e a imprudência de outros motoristas. Numa profissão tão perigosa, uma das que mais mata, no Brasil, ter direitos trabalhistas garantidos por lei deveria ser condição essencial, mas não é. Eles são terceirizados. Vou contar aqui o caso do meu pai, um “CLT terceirizado”.

Meu pai é um cearense de 59 anos, que estudou até a quarta série. Apesar do pouco estudo, fazia questão de se manter informado. Ele sempre lutou por seus direitos. Participou de várias greves junto com os colegas cegonheiros. Os patrões tinham o poder. “Eles mandam em tudo, têm lucros absurdos sobre nós”, ouvi meu pai dizer em diversos momentos, andando de lado para o outro dentro de casa, preocupado. “Trabalhamos feito condenados e recebemos um salário que mal dá para comer.” Quando as vendas de carros não iam bem, ninguém botava a roda na estrada nem dinheiro no bolso.

Quando faziam greves, os motoristas pediam por melhores condições de trabalho, maiores salários e CLT. Os patrões resistiam em assinar a carteira, alegando que a carga tributária alta reduziria seus lucros.

A coisa acontece assim. A montadora precisa que seus carros saiam do chão de fábrica e cheguem até as revendedoras ou portos em outras partes do país. Para isso, contrata uma empresa de logística e paga um valor determinado por frete. Essa transportadora, por sua vez, subcontrata os serviços de pequenas transportadoras por uma quantia menor àquela recebida pela montadora. As pequenas transportadoras, então, contratam motoristas, por um pequeno percentual desse valor. Em cada uma dessas etapas, os intermediários pegam sua parte em dinheiro, diminuindo o que seria pago aos trabalhadores. No fim, sobra pouca coisa.

A reivindicação de meu pai e de seus colegas era a de ter plano de saúde, adicional insalubridade e carteira assinada – o que lhe garantiria um salário fixo no fim mês mesmo se estivesse “fraco” de cargas. Depois de muito vai e vem em negociações, algumas pequenas empresas decidiram registrar seus funcionários, e meu pai foi incluído. Mas isso funcionou por um tempo. Depois a coisa se encaminhou para a informalidade pura e simples.

O registro na carteira de meu pai não serve para nada. Ele não tem salário fixo, ganha por comissão. Quanto mais viagens fizer, mais o patrão lucrará e passará a ele pequeno percentual. Desse valor, ele tira o dinheiro para abastecer o caminhão, pagar pedágios e leva o que sobrar para casa. A carteira de trabalho diz que meu pai recebe uma quantia por mês, mas esse dinheiro não chega a sua conta bancária. O salário estipulado é o mínimo para a categoria para que a incidência de impostos também seja menor. Um acordo anterior, que previa um salário fixo mais o percentual por frete, deixou de existir, o que hoje é mais um motivo de reivindicação por parte dos motoristas.

O registro em carteira serve apenas como uma forma de a empresa evitar reclamações trabalhistas por reconhecimento de vínculo. Quem fiscaliza? Ninguém. As grandes empresas contratantes não se importam com isso, e até mesmo os sindicatos fecham os olhos. Muitos têm em sua base os donos dessas transportadoras menores, que defendem seus próprios interesses, não os motoristas.

O chefe de meu pai exige que ele faça viagens cada vez mais rápidas, o que precariza ainda mais o trabalho e aumenta a insegurança. Ele deve correr feito louco para ir e voltar o mais rápido que pode. Já fiquei mais de um mês sem vê-lo, pois as rotas não o levavam de volta para casa. Meu pai tem problemas cardiológicos, como triglicérides e colesterol. Não tem tempo nem de ir ao médico para fazer exames de rotina quando está em São Paulo, pois logo tem de carregar a carreta para entregar o frete novamente, em alguma parte do país. Para não parar de trabalhar, só costuma ficar em casa aos finais de semana, geralmente no domingo, quando os hospitais estão fechados para consultas de rotina e exames.

Mesmo não tendo que transportar produtos perecíveis como cargas de frutas, por exemplo, os cegonheiros têm que fazer a viagem o mais rápido que podem. Isso significa rodar com o caminhão vazio, e as vezes carregado, 12 horas, com uma breve parada para uma refeição. A Lei do Descanso que estabelecia o descanso de 11 horas é também uma farsa. Muitos policiais rodoviários aceitam “uma gorjeta para o café” e deixam os caminhões rodarem. “Sono é bicho traiçoeiro”, costuma dizer meu pai. Quem se sujeita a tomar rebite – um comprimido de anfetamina que funciona como uma estimulante e faz ficar acordado – dirige até mais do que isso. O rebite é como um velho amigo de guerra dos caminhoneiros, mas pode ser tão traiçoeiro quanto o sono. O cansaço e a dificuldade de concentração também são outros responsáveis pelos acidentes que acontecem nas estradas todos os dias.

Meu pai é um bom contador de histórias. Arranca riso de qualquer um quando senta para lembra os causos vividos durante seus 35 anos de chão Brasil afora. Seus olhos podem encher-se de lágrimas. Mas quando se lembra das incontáveis vezes que por pouco não morreu em acidentes, sua expressão muda. Ele mesmo nunca se envolveu em acidente grave, que o machucasse, mas meu irmão e meus primos, sim. Religioso, costuma dizer que está vivo “pela proteção de Nossa Senhora”. Até meus onze anos de idade, eu passava minhas férias escolas na boleia do caminhão, dividindo com ele a aventura perigosa de viver sobre rodas.

Foi acelerando de sol a sol que meu pai e minha mãe, uma senhora de 60 anos, costureira, que estudou até a oitava série, conseguiram nos tirar da periferia, onde eu vivi até os meus 21 anos. Isso foi bom mas também é uma grande contradição. Esses ganhos são produto de jornadas escravizantes, onde ele rodava até mil quilômetros por dia, enfrentando condições insalubres de trabalho, e colocando a própria vida e a de outros em risco. Nada disso seria uma triste realidade, se houvesse salário digno, com direitos assegurados, com valorização da função que exerce, e se os patrões não fizessem pressão por entregas mais rápidas, para ganharem mais.

Há muitos trabalhadores iguais a meu pai pelo Brasil: nordestino, com pouco estudo. E eles se sujeitam a isso porque sabem que não encontrarão outro emprego tão fácil. Aí que está perversidade. Para os patrões a regra que vale é aquela que permite a grande rotatividade entre os terceirizados: “se você não quer, tem quem queira.”

(*) Depoimento prestado ao 247 com garantia de anonimato, pelo receio de retaliações no trabalho — o que ajuda a entender o ambiente de opressão em que vivem milhões de terceirizados

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