Dilma está quase virando o cabo das Tormentas


Miguel do Rosário, Tijolaço

A manipulação do debate em torno das “pedaladas fiscais” é a última bala no cartucho da oposição e mídia para derrubar o voto de 54 milhões de eleitores.
E tudo deverá ser decidido neste primeiro semestre, com a aprovação final das contas de Dilma e a decisão sobre a legalidade das manobras fiscais do governo em 2014.

Em meados de julho, Dilma poderá ter virado o Cabo das Tormentas, tendo feito a travessia pelas águas mais perigosas e turbulentas de que tivemos notícia em muitos anos.

Por isso mesmo, a mídia precisa agir com uma urgência e um consenso que não estão acontecendo.

Este consenso e essa urgência, pelo golpe, existe nos jornalões. Todos em crise financeira, estão desesperados por um golpe que ponha no governo alguém que os ajudem a sair do buraco.

Já vimos que os tucanos são pão-duros para pagar professores, médicos e servidores públicos em geral, mas não poupam recursos para financiar a mídia amiga, aí incluindo mensalões de até R$ 70 mil para blogueiros que atacam o PT.

Nada como um dia após o outro.

A história do “blogueiro pago com dinheiro público”, que os tucanos tentaram usar contra os blogueiros de esquerda, acabou por se voltar para os tucanos, exclusivamente contra eles.

Bem, voltando a questão do impeachment, a mídia precisava de um consenso absoluto: não conseguiu.

Eduardo Cunha, presidente da Câmara, cujo principal poder é justamente o de poder aceitar, ou não, pôr em votação o impeachment da presidenta, já percebeu que a canoa é furada. Afinal, deve pensar, mesmo que aceitasse o pedido, isso não garantiria o seu sucesso. E Cunha ficaria na linha de tiro como liderança do golpe.

Se aceitasse o impeachment, o PMDB seria a próxima vítima, visto que as ruas, à direita ou à esquerda, evidentemente, não aceitaram Temer ou Cunha na presidência.

Em congresso em Comandatuba, cercado de abutres da grande mídia (todos convidados pelo evento, um rega-bofe danado, diga-se de passagem) sequiosos por sangue, Cunha defendeu a presidenta com um argumento demolidor:

- O que vocês (jornalistas) chamam de pedalada é a má prática das contas públicas, de adiar pagamentos pra fazer superávits primários que não correspondem à realidade. (Isso) vem sendo praticado ao longo dos últimos, 10, 12, 15 anos, indefinidamente – afirmou Cunha, minimizando o assunto.
É o mesmo argumento que o governo já usou para se defender. E agora a mídia terá que se confrontar com a verdade dos fatos: outros governos fizeram igual à Dilma? Se fizeram, porque só Dilma é a culpada? E o próprio governo poderá dizer, com provas, que a sua pedalada foi infinitamente mais sutil do que aquelas feitas por FHC, e com objetivo muito mais nobre: manter intactos os programas sociais. FHC fez pedalada apenas para dar dinheiro ao FMI…

Além disso, Dilma decidiu-se, finalmente, a entrar no jogo. Semana passada, a presidenta fez o que deveria ter feito há muito tempo: convidou Eduardo Cunha para um jantar a sós no Alvorada.

Pelas afirmações de Cunha, os dois fecharam alguma espécie de armistício político. Até mesmo a votação da PL da terceirização começa a fazer água, e pode haver uma reviravolta neste sentido.

O próprio FHC, mentor último do golpe, presente no mesmo rega-bofe de Comandatuba, puxou o freio do impeachment. Diante das afirmações de Cunha, de que “pedaladas fiscais” aconteceram também em seu governo (em muito maior escala, aliás, e não era para pagar programas sociais), FHC recuou e fez declarações muito mais cuidadosas em relação ao impeachment.

Quem desejaria estar ao lado de um impeachment realizado por esta câmara de deputados? Pela câmara mais conservadora da nossa história, chefiada por Eduardo Cunha?

Ninguém quer ficar à frente de um golpe fracassado, porque todos sabem dos imensos riscos. Se houver um golpe, ele tem de ser bem sucedido, porque a democracia promoverá uma retaliação implacável contra os que tentaram violentar o desejo da maioria da população.

Um desejo que não é captado por datafolhas ou ibopes, nem por marchas de classe média branca na Avenida Paulista.

Numa democracia, o poder emana do sufrágio universal, ou seja, das urnas.
Somente as urnas expressam, em sua totalidade e diversidade, os anseios do povo brasileiro.

A mídia precisa agir rápido, e por isso os golpistas andam tão frenéticos.

Por isso mesmo o governo também tem de agir rápido, fazendo política, fechando alianças, melhorando sua aprovação através de iniciativas progressistas, produzindo agenda positiva."

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