'Corpos de militantes eram como troféu no DOI-Codi


Marival Chaves, ex-sargento e servidor do centro de tortura, revela à Comissão da Verdade que Ustra era 'permissivo' a atos de violência contra presos políticos; "As pessoas eram trazidas por se tratarem de figuras importantes nas organizações clandestinas, era como um troféu de vitória", declarou o militar reformado

Júlia Rabahie, da Rede Brasil Atual / Brasil 247

Em depoimento prestado nesta sexta-feira (10) à Comissão Nacional da Verdade (CNV) em Brasília, o ex-sargento e servidor do Destacamento de Operações Internas do Centro de Informações de Defesa Interna do II Exército de São Paulo (DOI-Codi/SP), Marival Chaves, afirmou que após presos políticos da ditadura (1964-85) serem mortos e torturados nos chamados centros clandestinos de tortura – aqueles que estavam fora do aparato oficial de repressão – por agentes do Estado, seus corpos eram levados para o DOI-Codi de São Paulo para serem expostos aos oficiais do Exército. Chaves trabalhou do DOI-Codi entre 1973 e 1974.

O militar reformado foi interrogado pelos membros da CNV Cláudio Fonteles e Carlos Dias, e ao ser questionado do motivo para a exposição dos corpos dos dissidentes mortos, afirmou que funcionavam como "troféu". "As pessoas eram trazidas por se tratarem de figuras importantes nas organizações clandestinas, era como um troféu de vitória."

Entre os corpos que foram exibidos no DOI-Codi de São Paulo, Chaves apontou o casal Antônio Carlos Bicalho Lana e Sônia Maria Morais Angel Jones, militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN) mortos em 1973 no centro de cárcere e tortura clandestino da Serra do Mar, chamado de "O sítio". "Eles foram presos na Baixada Santista e levados para o sítio. Foram levados depois para o DOI-Codi, vi os corpos e deu para ver que as balas foram direcionadas para as cabeças e para os ouvidos."

Chaves não afirmou com certeza a autoria da determinação para que os corpos fossem expostos, mas o coronel reformado Carlos Alberto Ustra, comandante do DOI-Codi de 1970 a 1974, que também prestou depoimentos à CNV, foi apontado por ele como "permissivo em relação a este tipo de atitude". "Acho difícil que, sem que o comando tivesse conhecimento, ou até autorizasse, os corpos seriam trazidos e expostos a visitação pública interna no DOI", comentou, acrescentando que pediu para deixar o local porque não suportava as atrocidades.

Além do centro de tortura da Serra do Mar, que, segundo Chaves, funcionava desde antes de 1973, quando passou a trabalhar no DOI-Codi, até 1974, quando foi desativado, havia um segundo centro clandestino usado para os mesmos fins. "Em 1974 este primeiro centro foi desativado e montaram o de Itapevi, 'a Boate'." Para o ex-sargento, tanto o funcionamento do Sítio como o da Boate tinha aval e colaboração do comandante Ustra.

"Não tinha como uma iniciativa dessa acontecer sem o Ustra liberar. A decisão pela ativação dos centros era medida adotada pela cúpula do golpe. Se você quer definir responsabilidade, ele era o comandante", disse.

Ele ainda afirmou que os líderes da ALN eram pessoas "marcadas para morrer". "Se assumia o comando, morria." Um terceiro centro clandestino passou a funcionar em 1975, contou. "Era na Rodovia Castelo Branco." Ainda de acordo com ele, os últimos ativistas do Partido Comunista Brasileiros (PCB) desaparecidos foram encaminhados para este terceiro centro. Em 1975, líderes do PCB, como Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior, "foram encaminhados para este cárcere e lá morreram".

Esta foi a primeira vez que a Comissão da Verdade tomou depoimentos abertos ao público de agentes da repressão.”

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