Médico é que nem sal: branco, barato e se encontra em qualquer esquina

Eberth Vêncio, Revista Bula

“A Medicina não é melhor nem pior que as outras profissões. Só é diferente porque cuida da vida.” Li esta frase num periódico do Conselho Federal de Medicina (ou da Associação Médica Brasileira, não tenho certeza...), que finalmente resume tudo o que eu penso a respeito desta espinhosa, incompreendida e, várias vezes, usurpada atividade profissional. O autor da mesma é um velho médico nordestino, Celso Matias de Almeida, 84 anos, ex-professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Aposentado há mais de 15 anos, o octogenário doutor não abandonou o eito e passou a atender, voluntariamente, a comunidade pobre de Natal, cidade onde reside. Dentre tantas estórias inspiradoras, o Vovô do Estetoscópio (Por que não? Se a imprensa joga seus holofotes sobre a Vovó do Crack, por que não enaltecer um Vovô do Estetoscópio? A sua maneira, cada qual interfere como pode no caos cotidiano...) conta que duas aventuras, em especial, marcaram-no visceralmente.

Na primeira delas, quando ainda era solteiro, foi retirado às pressas de uma Festa de São João em Currais Novos — RN para acudir, montado no lombo de um burro, uma mulher que paria num sítio em local remoto do agreste. O parto melindroso foi conduzido à luz de velas e, como a própria chama, a campesina deu a luz a uma criança saudável. “Deus ajuda muito os médicos do interior”, ele comenta, a transpirar humildade.

De outra feita, Doutor Celso precisou ser carregado, não por um burro, mas, nas costas de um agricultor, para atravessar um rio (aprendeu a curar gente, mas não aprendeu a nadar) e atender a sua esposa que sangrava aos borbotões, arrebatada por um abortamento natural. A pobre escapuliu e a estória também.
“Tá bom... Só que este tipo de médico não existe mais, meu chapa...” — alguém haverá de retrucar, transbordando desdém, desconfiança e alguma razão. Porque o que prevalece hoje no âmago da sociedade, nas rodinhas de bate-papo, nas manchetes dos jornais e da TV, é o escuro de nós, as sombras, os meandros, o podre que é vendável, o underground colocado no topo para impressionar, escandalizar, expor as mazelas numa espécie de auto-bullying.”
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