Sempre quis matar meu pai. Desde criancinha



Eberth Vêncio, Revista Bula

“Nunca antes na história daquela delegacia (até quando ainda farei alusões em meus textos à retórica populista daquele nosso ex-presidente-metalúrgico?), o doutor delegado (malandros insistem em dizer “eu não fiz nada, doutor”) ouvira uma confissão tão lógica e simplista quanto aquela do rapagão. Era como se ele tão somente comentasse “vou matar aulas hoje”.

Pobre diabo. Àquela altura da vida, nem mesmo aulas poderia matar, uma vez que abandonara os bancos escolares (na verdade, fora abandonado por eles, pela constante falta de vagas na escola pública) ainda durante o Ensino Fundamental, atormentado pelos mapas geográficos incompreensíveis, as regras de três, os cálculos matemáticos, a fome e o comportamento destrutivo do pai.

Atualmente, vivia entretido mesmo era com o ócio, o uso contumaz de crack (engrossava as fileiras de viciados urbanos que muitos cidadãos prefeririam enfileirar num paredão e fuzilar) e a torcida organizada “Os Fanáticos Demônios”. Bom mesmo era comparecer ao estádio, urrar feito um primata, empurrar o time para dentro do adversário, aprontar quebradeira nos terminais de ônibus e trucidar qualquer safado vestido com camisetas dos times rivais.

Especialista em miséria humana, o delegado supunha já tivesse visto de um tudo na sua carreira. Irmão que matava irmão. Crimes passionais. Latrocínios. Trairagens familiares seguidas de morte. Infanticídio. Raptos. Abortos clandestinos. Rupturas himenais forçadas. Torturas. Judiações. O supra-sumo do sadismo. A crueldade sem amarras. O Homem na pior acepção da palavra.

Mesmo experimentado na maldade alheia, o doutor (a violência é uma doença genética sem cura) sentiu um calafrio sorrateiro a lhe percorrer a espinha enquanto ouvia o relato detalhista daquele jovem patricida, cujo crime fora amplamente noticiado pelos meios de comunicação e repercutido nos mais diversos templos religiosos da cidade (“Jesus está voltando. O final está próximo.” E coisa e tal...).”
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