Quem mata mais: o cinema, o cigarro ou estudantes de medicina ensandecidos?


“A saudade mata a gente, morena. A saudade é dor pungente”,
(composição de João de Barros e Antônio de Almeida) 

Eberth Vêncio, Revista Bula

Quem mata mais: o cinema, o cigarro, estudantes de Medicina ensandecidos, a saudade, o répi-auer, a gripe A, o lado B dos vinis, o BHC, canções do tipo “Assim você me mata”, os alimentos transgênicos, os atentados homofóbicos aos transexuais, a gordura trans, o excesso de sal, o excesso de açúcar, o excesso de corrupção, a falta de vergonha na cara, a impunidade, as estradas brasileiras, a anorexia nervosa, a fome africana, a fome de grana dos mensaleiros do Petê, a sífilis, a endemia de maleita no Norte, a falta de limite dos adolescentes filhinhos-de-papai, a falta de educação, os tumores, os temores descabidos, os tremores de terra, os Estados Unidos da América, as ditaduras do século 21, a guerra civil na Síria, o derrame cerebral, o derrame de dinheiro surrupiado em paraísos fiscais nas Ilhas Cayman, a falta de saneamento básico, a hidrofobia, a sede de vingança, a seca no sertão nordestino, o desvio de verbas para o desvio das águas do Rio São Francisco, a raiva por pagar tantos impostos ao Governo sem a devida contrapartida, o voto nulo, o voto de confiança em políticos safardanas, o falso voto de castidade de estupradores psicóticos devolvidos ao convívio social pela Justiça, a injustiça, as torcidas organizadas, o crime organizado, a sociedade desorganizada, a Organização das Nações Unidas, o suicídio, o aborto clandestino, a hipocrisia social, as religiões, o SUS, Deus, os Homens?

O título desta crônica é propositadamente provocativo. Mas não será a vivência humana neste planeta, da mesma forma, provocativa, impelindo-nos aos questionamentos mais pertinentes, às vezes dicotômicos, quais sejam a fé inarredável em Deus e a descrença na humanidade? A despeito de tanta revolução industrial, evolução científico-tecnológica, o ser humano tem ambições caninas e fareja o mal, ele tem vocação para as atrocidades. Notem: na escuridão ignóbil e antiquada das cavernas não havia cinema, telona, pipoca, bolinações no breu, muito menos armas de fogo. Mas havia uma chama interior que impelia nossos ancestrais a se danificarem. Feria-se, matava-se de forma automática com a eficiência das pedras e dos porretes, quando não com as unhas e mandíbulas.

A violência afeta os mansos de forma significativa. Afetado, eu sigo escrevendo, trabalhando, pagando impostos incríveis em todas as esferas públicas, e desistindo gradativamente da raça humana, apesar da gostosura dos pudins de leite condensado, dos gols de bicicleta, do mar quando quebra na praia (é bonito... é bonito...), das tatuagens de fadinhas voadoras nos tornozelos das beldades, e do efeito inebriante de canções velhas como “Let it be” de Lennon e McCartney (o som funciona mais que prozac misturado a uísque).

A mais recente polêmica que permeia a mídia e as mesas de Café diz respeito ao potencial efeito nocivo dos filmes e dos videogueimes com conteúdo violento no psiquismo das pessoas, especialmente crianças e adolescentes. Repetindo discursos antiquados, muitos estão convictos que tais filmes e joguinhos estimulam violência. E que filmes de sexo explícito estimulam o sexo explícito. E que filmes de amor estimulam o amor. E que filmes de guerra estimulam as guerras. E que filmes de ficção científica estimulam não só a ficção como a ciência (vão ser bons assim pra lá!). E que as comédias idiotas estimulam a idiotice. E os documentários estimulariam o quê? Num passado recente, os vilões da juventude e do status quo eram outros: os versos sem rima, a poesia concreta, o rock’n’roll, os blusões de couro, as mini-saias e até os revólveres de espoleta.”
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