Fique você sabendo que o Céu não existe


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Você vai morrer e não vai pro céu. É bom aprender: a vida é cruel”, 
Homem Primata (Titãs)
 

“Se tem uma coisa da qual eu desgosto a cada dia é gente”, disse o meu interlocutor, claramente emotivo, visivelmente afetado pela bile, supostamente obnubilado pelo coquetel de drogas despejadas dentro da sua veia pela equipe médica. Para muitos uma falácia, ele dizia aquilo como uma espécie de válvula de escape. Fazia um desabafo dos mais crus e primitivos, enquanto o médico repetia a aferição dos níveis pressóricos que até agorinha mesmo encontravam-se às tampas. O sangue ferveu por conta de um entrevero com um funcionário da sua empresa. Saiu do fórum direto para a enfermaria.

“Vou começar do início”, ele disse redundante. Contou que o sujeito batera à sua porta com uma mão na frente e outra atrás, que é como se diz quando se está na pindaíba, na quebradeira, no sufoco, na pior das situações do ponto de vista financeiro. Mesmo sem possuir referências seguras do estranho que reivindicava emprego pelo amor de Deus, ele julgou que havia sinceridade e o contratou. “Pensei comigo: bandido não procura emprego formal...”, admitiu o erro de julgamento, sem se lembrar que gangsteres, deputados e outros meliantes trabalham de sol a sol para se garantirem.

Com o apagão de mão de obra por que passa o país, não poderia dar-se ao luxo de tantas exigências burocráticas. Então, catou o sujeito que há três dias não comia. O homem devorou um prato de comida como se fora o último da sua vida. Fazia dó, pois o novato faminto fungava, lacrimejava os olhos, fazia pausas enquanto mastigava, levantava as mãos para o alto e orava: “Deus lhe pague, Deus lhe pague”.

Os primeiros três meses de trabalho foram de puro êxtase para o patrão. Afinal, o sujeito tinha um comportamento irrepreensível, cumprindo à risca o horário de trabalho, executando as funções combinadas com o esmero de um veterano. Olhando assim de longe dava pra jurar que aquele homem estava realmente “vestindo a camisa da empresa”, que é como diz quando uma pessoa trabalha com gana.”
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