Washington Araujo, Observatório da Imprensa
“A imprensa tem longa experiência na cobertura de Comissões
Parlamentares de Inquérito. Em temporada de CPI é patente o manancial (pensei
em escrever cachoeira) de informações a preencherem páginas de jornais e
revistas, em casos que a imprensa elege como “por demais clamorosos”; cadernos
especiais são criados, assim como é inventada uma logomarca.
O assunto é mais ou menos reverberado nos meios de comunicação de acordo
com o grau das pessoas e instituições investigadas. Em um hipotético termômetro
de interesse midiático podemos inferir que se o investigado é o governo federal
– principalmente os dos últimos quadriênios – é certeza absoluta de que donos
de jornais e revistas, redatores-chefes, editores e colunistas de plantão
atuarão como se tivessem mandato parlamentar, engrossando ainda mais a lista de
investigadores, elencando diariamente novos alvos de investigação, preparando
conexões ou meras ilações entre esse e aquele personagem, esta e aquela
empresa.
Formam, por assim dizer, o esquadrão midiático voluntário em apoio aos
trabalhos da CPI. Não são remunerados, ao menos diretamente, por seu trabalho
que, longe de ser gracioso, é regiamente pago, mas de maneira indireta, através
da minutagem que os temas de sua predileção terão na escalada de telejornais,
do espaço nas capas e cadernos de jornais e revistas.
O nosso e o dos outros
O braço midiático das CPIs sabe muito bem que não existe almoço grátis. E
seu trabalho investigativo é tão isento quanto a defesa que faz o agronegócio
da preservação do meio ambiente, propugnando pesadas multas pecuniárias a seus
congêneres desmatadores. Muito ao contrário, a imprensa não é isenta e chama
para si o direito de oferecer à opinião pública quem são os mocinhos e os
bandidos, antes, muito antes de a CPI se encaminhar para seus desdobramentos
finais.
É prática de boa parte da imprensa pecar por excesso de protagonismo:
publica avalanchas de sinais como se fossem evidências robustas de
culpabilidade. E, ao mesmo tempo, peca por excesso de omissão: deixa de
publicar o que possa estar em contradição com o veredicto esposado pela
publicação, ou pela rede de televisão. Em algumas CPIs a
omissão chega a ser criminosa. É como se estivessem permanentemente em sala de
edição, cortando o que não deve vir a público e criando a realidade que precisa
vir à luz.
A Comissão Parlamentar de Inquérito recém
instalada tem em sua essência algo que destoa por completo das muitas que lhe
antecederam. É o ineditismo de, pela primeira vez neste país, a imprensa vir a
se tornar alvo de investigação. E, então, temos um rosário de coisas inéditas.
Primeiro, não é a imprensa que está na bica para ser investigada. É, tão
somente, o jornalista Policarpo Junior, da sucursal da revista Veja, em Brasília. Mas, para
a imprensa, é seu teste ético de força: devemos todos nos posicionar em defesa
de Veja ou deixá-la aos humores, talentos e habilidades dos
parlamentares que atuam na CPI?”
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