História de cachorro


Menalton Braff, CartaCapital

“Com bicho aprende-se muita coisa.” Alguém já deve ter dito essa frase. Hoje em dia anda muito difícil criar, principalmente frases, e, entre essas, sobretudo as de efeito. Mas ela interessa à história que me ocorreu e não vem ao caso saber quem a cunhou, e espero que ninguém me acuse de apropriação indevida de produção intelectual.

Feita a introdução necessária, vamos à história. Houve uma época de minha vida em que fazia diariamente um percurso, não muito longo, a pé e sempre no mesmo horário. Era por volta do meio-dia e o trecho do caminho a que me refiro era entre dois renques paralelos de árvores altas e copadas. Era o melhor pedaço do caminho, pois livre do sol (que tanto pode ser vida como pode ser morte). Nesse percurso, havia uma casa retirada da calçada, pouco além de um jardinzinho meio abandonado. Protegendo casa e jardim, uma cerca que consistia simplesmente em uma tela de arame com malha de uns oito centímetros e cerca de um metro e meio de altura. Nunca me dei ao trabalho de medir e espero que vocês acreditem em mim.

Não posso imaginar a razão, mas no mesmo horário, um cachorro branco com manchas pretas vinha latir do lado de fora da cerca, provocando a ira de um cachorro fulvo do lado de dentro. Ao se encontrarem, separados pela cerca, corriam a extensão toda do terreno dizendo-se, presumo, os piores palavrões, pois seus dentes arreganhados me permitem a ilação. Bem na metade da cerca ficava um portão também de tela, invariavelmente fechado.”
Foto: Galeria de Cesar e Camilla/Flickr
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