Velório singular narrado na 1ª pessoa


Eberth Vêncio, Revista Bula

“É isto que dá a gente conversar com estranhos. Mas, considerando que somos todos muito estranhos — e nem adianta você remexer na cadeira a negar o óbvio — eu prossegui o colóquio com aquela estranha mulher na lanchonete do cemitério.

E querem saber de um pensamento pra lá de estranho? Tenho nojo de comer esfirras de carne naquele recinto. Coisa esquisita? Pois é. Eu bem que os avisei. Foi assim a nossa conversa. Abre aspas...

Indeusde muito cedo, eu sempre quis fugi de casa. O sinhô sabe que a televisão noticia um monte de criança desaparecida todo santo dia, né não?! Pois é, muitas dela fais é fugi de casa. Tem casa que é um verdadero inferno, dotô...

Que nem a minha, por exemplo. Ele bulia comigo inquando eu tinha cinco, seis ano, nem me alembro mais. Mamãe sabia de tudo. Teve um dia que criei corage e contei dos abuso pra ela.

Ralhô tanto comigo, ela ficô tão braba que prometeu uma surra de vara de goiabera se eu falasse traveis no assunto. Num sei se ela tamém tinha medo do pai do mesmo tanto que eu tinha.

Batê nela ele num batia. Nunca vi ele encostá a mão na mamãe, nem pra machucá, nem pra fazê carim tamém. Hoje eu penso: o mais provave é que ela tentasse mantê as aparença e o marido. Naqueles tempo nóis morava na roça e as coisa tava muito difice. Teve uns dia de a gente não tê o que comê na despensa de casa. É ruim demais em a gente passá fome. Cê já sentiu fome argum dia, dotô? Fome de justiça, não. Fome de comida, eu tô dizeno. O sinhô já sentiu um oco na barriga treis dia seguido?

Inhagora que eu vejo o cadave do meu pai durmino o sono eterno ali no meio daquela sala... Num sei... Fico meia sem graça porque as pessoa da famia, os parente não vê lágrima escorreno dos meus óio.

Não sinto vontade de chorá por causa de ele tê morrido, entende? Tamém não sinto raiva não. Inquando eu era mais nova, inquando eu tinha uns quinze ano, eu sentia muito nojo dele. Só o chero já me embruiava o estamo, sabe?!”
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