Paulistano: sobrevivente e cidadão do mundo


São Paulo é paisagem urbana em eterna mutação. De imperdível, apenas ela própria e seu estilo mutante. Acompanhá-la nesse processo e continuar a amá-la é simultaneamente, uma benção e uma maldição.”

Márcia Denser, Congresso em Foco

Neste 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, revisito uma antiga crônica minha (escrita há uns seis anos) sobre esta cidade que um dia acreditei minha. Contudo, sinto que ambas envelhecemos, mudamos – e não para melhor, ao contrário – e, talvez por isso, nos estranhemos cada vez mais.

Todavia, continuo paulistana de quatro gerações. Meu tataravô, Norbert Denser, foi um berlinense que, em torno de 1850 e por razões desconhecidas, deixou a Alemanha pelo porto de Dantzig, embarcando sozinho num cargueiro dinamarquês com alguns livros, a caixa de ferramentas e uma capa de oleado. Um mês depois aportaria em Santos e, num estado de calamitoso orgulho, subiria a serra pela estrada de ferro inglesa rumo a condições climáticas mais dignas dum homem trabalhar e constituir família, uma vez que ele deve ter pensado, intuído, decidido: case-se com uma mulher da terra –  a terra prometida sempre é o corpo da mulher amada.

Por isso em 24 de agosto de 1865, de acordo com os registros do Departamento de Patrimônio Histórico, data em que assentou sua banca de ferreiro na Rua de Santo Amaro, possivelmente já estivesse casado com uma das Borba, filha ou neta do bandeirante Borba Gato, aquele da Estátua.

Meu avô paterno – que não conheci – Antonio de Borba Denser casou-se com Carolina Miceli, donde papai, falecido em 1997, assinar Durval Miceli Denser. Contudo eu e minha irmã optamos por um único sobrenome: Denser.  Então retornamos ao velho Norbert lá do começo.

Bom, isso é história, agora, a ficção: sou escritora e a cidade é meu campo de ação, minha via crucis, meu altar de sacrifícios, meu refúgio, minha identidade mais secreta. E também a mais pública. Desde tempos imemoriais, a cidade é um símbolo feminino, é mulher, então compreende-se porque as estátuas de deusas-mãe, como a Diana de Éfeso, ostentam coroas em formas de muros.”
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