Mauro Santayana, JB Onine
“Hoje, o Jornal do Brasil inicia a ousada experiência de substituir a impressão sobre o papel pelo registro do texto e imagens no campo eletrônico. A empresa editora do Jornal do Brasil expôs as suas razões, que podem contrariar os nossos sentimentos, como jornalistas e leitores, mas são irretorquíveis, diante da realidade de um mundo limitado em seus recursos naturais, e da irresistível velocidade das inovações tecnológicas.
Faz parte da natureza humana, desde Hesíodo, lamentar que todo tempo passado foi melhor. Durante uma parte da vida, caminhamos atraídos pela esperança; depois nos amparamos nas alegrias e na vitória sobre as dificuldades. Quando faço um balanço do passado, sinto que a palavra impressa, nos livros e nos jornais, significou a metade, ou mais, de minha vida, desde o dia em que terminei, aos 12 anos, a leitura de uma tradução portuguesa de Dom Quixote. Não foram as leituras cristãs, nem marxistas, posteriores, que me fizeram a cabeça, mas, sim, os pobres, ridicularizados, desdenhados e imensos personagens de Cervantes, principalmente Sancho Pança, íntimo dos porcos e senhor de inquietante bom-senso.
Entrei para o jornal aos 19 anos, e tarde, para os costumes da época. Foi ali, e manuseando papéis virgens e impressos, ouvindo o barulho das máquinas de escrever, de composição e de impressão, que me formei. Ao cobrir os fatos trágicos do cotidiano, confirmei as minhas escolhas éticas, feitas em atribulada adolescência. Permitam-me, assim, lamentar o fim das redações e do convívio entre homens maduros e outros muito jovens – enriquecido, mais tarde, com a doce presença feminina – na corrida contra os prazos, em busca da confirmação dos fatos¸ e na catarse dos bares, depois do fechamento das edições.”
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