“Não sabemos o que é pior no Rio de Janeiro: se a cidade partida entre favela e asfalto ou a política conduzida por mentes partidas entre sociedade e partidos. Mentes partidas são as dos políticos que se orientam mais pelos interesses dos partidos (partido é sempre parte) do que pelos interesses gerais da sociedade. O que assistimos nas últimas eleições para prefeito da cidade foi o predomínio soberano da mente partidária e da convicção ilusória de que os graves problemas da cidade se resolvem a partir da máquina do poder federal, estadual e local. É a velha fórmula que nunca deu certo: esperar as soluções que vêm de cima, da articulação dos poderes públicos, deixando à margem a sociedade e o poder da cidadania.
A gravidade da crise econômica, política, sanitária, educacional e de segurança da cidade que um dia foi "maravilhosa" e cheia de glamour exige uma nova forma de governar, uma alternativa de poder. Não pode ser mais do mesmo. Quer dizer, mais poder de cima para baixo, mais articulação entre os partidos, mais policia e mais repressão. A solução possível só pode vir de baixo para cima. Vale dizer, mais poder no meio do povo, mais envolvimento das comunidades e dos movimentos, mais participação dos cidadãos. O estado deve realizar radicalmente sua natureza e missão: ser a instância delegada do poder popular, o articulador das forças sociais e políticas em vista do bem de todos. O estado tem que se convencer de que não está acima nem de costas dos cidadãos. Ele é seu servidor. A impressão que temos é de que o povo, a cada quatro anos, tem o direito de escolher o seu ditador. Uma vez eleito, o candidato faz uma política de ditador, palaciana e somente com os pares. A centralidade não é ocupada pelo povo. Geralmente se faz uma política pobre para com os pobres e rica para com os ricos. Essa é a grande partição que aprofunda o apartheid social vigente na cidade.”
Leonardo Boff, Adital
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