Coisas da política: Os esteios das ilusões

“Dia de muito é véspera de pouco, recomenda a cautela antiga. Há compreensível euforia nos meios econômicos, com o juízo de agências americanas de risco, que reconhecem, no Brasil, mercado seguro para investimentos externos. Se, de um lado, a classificação se funda nos esforços nacionais em regularizar as contas públicas, do outro, oferece o país como bom lugar para ganhar muito dinheiro. Nesse aspecto, somos hoje o mais generoso dos povos em desenvolvimento. Os juros são altos, é grande a liberdade de ir e vir dos capitais, os salários são baixos e a representação parlamentar desatenta.

Os investidores podem sentir-se tranqüilos. Se, em qualquer momento, o vento virar, eles contarão com boas rotas de fuga. Basta liquidar os negócios e atravessar céus e mares com o dinheiro obtido. Enquanto o vento não vira, remetem o máximo para seus países. É bom, e sempre, relembrar o aviso de Barbosa Lima Sobrinho, de que o bom capital é aquele que se faz em casa. Seria conveniente que, sob o endosso das agências de risco, cuidássemos de disciplinar a entrada de capitais no país. Se os investidores quiserem participar de nossa economia, devem vir para ficar, e assumir os riscos inerentes ao capitalismo. Não podem vir, colher os frutos da estação e partir em seguida para onde haja novas safras a ceifar.”
Mauro Santayana, Jornal do Brasil
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