A despensa do Palácio

“Qualquer governo que assuma o Estado deve saber como atuava o antecessor. Nas organizações privadas, o comportamento costuma ser o mesmo. O sucessor deve informar-se de como se encontra o patrimônio que lhe é entregue, e verificar como ele foi cuidado, quando menos a fim de alterar, se for o caso, práticas e hábitos.

Conhecer como eram administradas contas do Estado é legítimo. Sendo assim, o levantamento das despesas do Palácio do Governo e da família presidencial anterior não pode ser criticado. Essas cautelas, partam do ministro do Gabinete Civil, sob cuja responsabilidade se encontra a administração da sede do governo e da residência do Chefe de Estado, ou do próprio presidente, é explicável. É normal que haja uma memória de todos os atos governamentais, a ser consultada em qualquer tempo. Nada há nesse comportamento que contrarie a ética e as leis.

A política é uma atividade de seres humanos. A luta pelo poder e seu exercício constituem um jogo bruto, de regras flexíveis, em que se mesclam o idealismo, as naturais ambições pessoais, a astúcia e, acima de tudo, o medo. O temor, companheiro natural de todos nós, acompanha os homens públicos, do despertar ao leito, e muitas vezes os incomoda nos pesadelos inevitáveis. É da tradição universal da política a falsificação de documentos a fim de comprometer os adversários. O atual governo dos Estados Unidos esmerou-se nessa prática, com o objetivo de enganar a opinião pública, no caso da guerra contra o Iraque e o Afeganistão. No Brasil tivemos falsificações famosas, desde as cartas atribuídas a Bernardes, em 1922, à Carta Brandi, em 1955, que, divulgada por Carlos Lacerda, desencadeou a grave crise que conduziria à tentativa de golpe de 11 de novembro do mesmo ano - contra a posse de Juscelino já eleito presidente. A carta, datada de 1953, propunha a criação de uma república sindicalista nos dois países, e fora falsificação grosseira, que laudo pericial comprovou de forma definitiva.”
Mauro Santayana, Jornal do Brasil
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