O efeito glacial

“As sociedades sempre preservaram sentimentos básicos. Esses geravam as bases da convivência comum. Criavam o sentido de solidariedade e, sem obstáculos, a amálgama entre as pessoas.

Assim aconteceu durante séculos. A vida íntima das pessoas era resguardada. Ninguém revelava as entranhas da vida familiar. A parceria entre mulher e homem revestida de recato.

Jamais desvelava-se a intimidade. Os assuntos particulares aos atores pertenciam. Acontecimentos da existência, como o nascimento e a morte, revestiam-se de sacralidade.

Quando do nascimento, as famílias se reuniam. Esperavam o momento decisivo do parto. Corria risco a mulher. Em seu entorno, a grande expectativa. Até o momento do primeiro vagido, desconhecia-se o sexo do nascituro.

Na morte não era diferente. Todos circunspectos aguardavam o último momento. Nada de UTI ou isolamento. Morria-se à vista de todos e acompanhado por todos. A família, ainda uma vez, reunida.”
Cláudio Lembo, Terra Magazine
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