O choque inevitável

“Conta Eduardo Galeano, no clássico 'As veias abertas da América Latina', que a cidade de Ouro Preto, no século 18, estava entre as mais ricas do mundo e, contraditoriamente, sua elite chegou a comer cachorros e ratos para sobreviver durante as crises de abastecimento. Enquanto alguns poucos fantasiavam outra vida com o falso luxo patrocinado pelo ciclo do ouro - dos chapéus franceses, tapetes persas e rendas holandesas -, toda a sociedade padecia de uma fome crônica e evitável. Faltava nesta elite visão de realidade, de futuro e de coletividade.

Passados séculos, a elite brasileira ainda assusta. Até mesmo o cinema nacional, que prefere deixar para as novelas tramas que envolvem os mais ricos. É na televisão que estão também a classe média e o Centro-Sul. Desde o Manifesto do Cinema Novo, as melhores obras foram embaladas pelas palavras de Glauber: "A fome latina não é somente um sistema alarmante: é o nervo da sua própria sociedade. Aí que reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é nossa fome".

É difícil fugir deste Brasil miseravelmente original. Primeiro, porque oferece matéria-prima inédita em fartura. Segundo, porque o Brasil burguês exige do cineasta um olhar sobre si mesmo e seu meio. Este auto-exame não raro causa estranhamento, desconforto e culpa.”
Carla Marques, Direto da Redação
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