O homem que filmou a alma

“Na segunda, 30 de julho, Ingmar Bergman, cineasta sueco, transvivenciou, aos 89 anos. Com a sua morte, apaga-se um olhar, uma luz, o relâmpago que nos permitia decifrar, entre gritos e sussurros, a hora do amor, e também a hora do lobo.

Ao ver o mundo, não o fazemos de igual modo. Depende das lentes que se escondem atrás dos olhos. Há olhos límpidos que encobrem diabólicos visionários; outros, sombrios, guardam aguda lucidez. A miopia, antes de ser uma anomalia do globo ocular, é uma deformação da mente. Só se conhece bem uma pessoa quando se desvenda a sua ótica das coisas.

Por detrás dos olhos bem abertos de Bergman, alojavam-se o filósofo SÆren Kierkegaard e o psiquiatra Carl Jung, dois intelectuais angustiados, como o profeta Elias, pelo silêncio de Deus. Kierkegaard quebrou o monopólio da razão ao introduzir na pauta filosófica as inquietações do coração. Jung transcendeu a pedra angular do racionalismo científico revelando a sintonia holística e religiosa do inconsciente.

Assisti a quase todos os filmes de Bergman, cujos olhos centraram-se mais na Terra que no céu, no ser humano que no divino, nos mistérios da alma que nas incongruências das relações sociais. Ele fez da subjetividade a matéria-prima de sua arte, sem jamais ceder ao psicologismo barato. Sua linguagem estética revolucionou, no cinema, as estéticas da linguagem e da imagem.”
Frei Betto / Adital
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