A dialética do ódio

“O governo federal vai criar órgão independente para investigar casos de tortura nas prisões e nas delegacias policiais. Trata-se, conforme a Constituição, de crime inafiançável e imprescritível, mas banalizado no país. Desde o Iluminismo, a razão abomina esse método de obter informações e de punir os transgressores da ordem vigente. A tortura foi instrumento das inquisições católica e protestante. Os inquisidores exerciam, em suas vítimas, a mesma violência praticada contra Cristo. O argumento teológico era o de que, se inocente, o torturado resistiria até o fim. Se culpado, acabaria por confessar. Era a "prova da verdade". Se assim fosse, ao não ser socorrido por Deus no alto da cruz, quando apelou por seu socorro, Jesus teria também "provado" sua culpa.

Não há notícia de que, quando da repressão aos inimigos da Revolução Francesa - que chegou à guilhotina - tenha havido tortura. Houve agressões, e o próprio Robespierre, ao ser preso, foi ferido na face, mas não há registro de violência como método de interrogatório. Durante todo o século 19, a Europa esteve livre dessa prática, que só voltou a partir da Primeira Grande Guerra Mundial. Nos outros continentes, no entanto, a tortura continuou a ser usada. No Brasil, os senhores de escravos foram sádicos, no uso do tronco e da chibata, na marcação dos cativos, no estupro de escravas e na crueldade contra as crianças negras.”
Mauro Santayana / Jornal do Brasil
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