Trem doido

“Panelas e comida, doença e remédio, material de escritório e até mulher: para os mineiros tudo é trem. Menos o trem

Mineiro gosta mesmo de trem. Não tem jeito. Inclusive chama tudo de trem. Refere-se às panelas e aos pratos como trens de cozinha. Doença é um trem e o remédio também. Um mineiro piorava de saúde e me dizia que teve um trem esquisito, mas depois tomou um trem que o farmacêutico receitou e ficou bom.

Já vi gente comprar trem de escritório, trem de matar mosquito, trem de tudo quanto é tipo. Até quando está com fome, vai ali e come um trem. Mulher bonita é trem bão, ou trem doido. Como diz a piada, mineiro só não chama uma coisa de trem: o trem, quer dizer, o trem de ferro, como o chamávamos. Contam que uma família esperava o trem numa estação mineira e, quando ele apontou se aproximando da estação, o homem falou pra mulher:

— Mulher, pega os trens que lá vem o baita.

Eu sou mineiro de uma cidade que nunca teve trem – quer dizer, trem de ferro. Porque outros trens tinha aos montes, já que a gente também chamava tudo de trem. Então tinha muito trem, mas não o baita, “de ferro”. Uma frustração!”
Mouzar Benedito / Revista Brasil
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