O rabino Sobel e o Brasil

“Conheci o rabino Sobel na época do enterro de Vladimir Herzog, o Vlado. Assassinado pelo regime militar depois de barbaramente torturado, o corpo do jornalista foi entregue à família com a informação de que teria se suicidado. Uma foto do suposto auto-enforcamento foi entregue à imprensa. A farsa, como em tantos outros casos, era evidente. Mas aqui havia um detalhe. Como judeu Vlado deveria ser enterrado em um cemitério judaico, e a tradição prescrevia um local separado para suicidas, por terem atentado contra sua própria vida. O então jovem rabino da CIP (Congregação Israelita Paulista), chegado havia pouco dos Estados Unidos, calculou e correu o risco. Determinou que o corpo não seria enterrado junto aos suicidas, pois suicida não era. O enterro foi dramático: inconformismo da mãe, esposa e filhos, algumas falas corajosas, fotógrafos e cineastas (sic) do governo registrando a presença dos "subversivos" à cerimônia. Havia medo, mas a atitude daquele rabino deu coragem às dezenas de colegas e amigos do jornalista assassinado que se comprimiam em volta do caixão e que acompanharam, chorosos, mas conscientes do seu papel, a descida do corpo para dentro da cova no Cemitério Israelita do Butantã.”
Jaime Pinsky / Adital
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