O batismo do frade voador

“Eu tenho cada amigo... Um deles, dos melhores e mais antigos, é o Carlos Alberto Libânio Christo, sexagenário frade dominicano, um senhor de cabelos grisalhos e fala mansa, solteiro, sem filhos, que conheci ainda quase moço em São Bernardo do Campo, no final dos anos 70 do século passado.

Nós dois fomos parar lá por diferentes motivos, mas que acabaram por nos levar a trilhar caminhos comuns pelo resto da vida. A chamada República de São Bernardo havia se transformado no principal centro de resistência ao regime militar, que então já vivia nos seus estertores.

Ele era da Pastoral Operária do ABC, recém-chegado de uma temporada morando numa favela de Vitória, no Espírito Santo, depois de passar quatro anos na cadeia como preso político. Eu, recém-retornado de uma breve vilegiatura como correspondente do “Jornal do Brasil” em Bonn, na antiga Alemanha Ocidental, estava lá como repórter da revista “IstoÉ”, escalado pelo Mino Carta para cobrir o movimento sindical dos metalúrgicos liderado por um certo Luiz Inácio da Silva, o Lula. Poucos meses antes, um amigo tinha me enviado para a Alemanha o “Batismo de Sangue”, primeiro livro de Frei Betto, e foi assim que fiquei sabendo da sua existência.”
Ricardo Kotscho / no mínimo
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