Cada tempo tem o seu lobo

“O filho de um grande amigo é um destes que enche o pai (ex-guerrilheiro) de orgulho. Engajado até a alma na luta pela preservação do bairro carioca de Santa Teresa, ele panfleta, agita, reclama, critica, vai a assembléias e participa ativamente da vida cultural do bairro onde vive desde que nasceu. No entanto, em conversa descontraída numa festa local, revelou o pouco apreço que tinha pela sua práxis (pós) revolucionária.
- Bom mesmo era no seu tempo.
- No meu? – redargüi curioso, interessado em saber o porquê daquela atração pelos anos 60/70.
- Cara, tinha a maior ditadura! Vocês enfrentavam o inimigo olho no olho.
Vocês quem, cara-pálida? Para começo de conversa, eu mesmo não enfrentei ninguém, pois quando cheguei à idade de “militar” já não havia onde. Mas entendi perfeitamente a angústia daquele jovem tão descolado e participante. Ele foi criado à sombra das façanhas não só do pai, mas de toda uma geração que desafiou a repressão, assaltando, seqüestrando e até executando alguns esbirros do falecido regime militar. Olho por olho, é verdade, mas também dente por dente, em um troca-troca que foi devastador para as organizações de esquerda. Graças ao bom deus Cronos, tudo isso ficou para trás.”
Marcus Veras / Em Dia Com A Cidadania
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