Confesso que não tenho grande entusiasmo pela instituição dessa data. A própria instituição de uma data especial já deixa declarados a segregação e o preconceito. Ela já foi instituída como forma de compensação pelo massacre que a mulher sofreu secularmente. Se não é por isso, por que ninguém nunca se lembrou de instituir o dia do homem? Simplesmente porque o machismo acha que o homem é tão mais, tão superior, que não precisa ter um dia. O machismo acha que dia do homem são todos os dias.
Não nego todas as conquistas das mulheres nos últimos tempos. E não apenas não nego, mas louvo. Cada conquista foi resultado de uma luta que a própria mulher empreendeu em defesa de seus próprios direitos. A mulher saiu a campo, ergueu corajosamente a voz, mostrou as injustiças, reivindicou direitos, ocupou seu lugar de pessoa, não porque é mulher. E a luta continuou, talvez nunca termine, pois a luta é contra um machismo tradicional eternamente alimentado por uma sociedade viciada que vê o homem como ser superior. E essa sociedade é composta por homens e mulheres que exercem o machismo de forma natural, como se fosse impossível mudar um mundo nele consolidado.
Sinceramente, não consigo participar da festa de hoje. Não, enquanto estiver assistindo à continuidade da injustiça a que a mulher é submetida. Não enquanto vir a própria mulher educando seus filhos para o machismo: os meninos para a glória e as meninas para a submissão. E isto é provado por frases tão comuns no ambiente doméstico: “ele pode porque é homem”, “homem não chora”, “ele desarruma e a menina arruma”, “o menino pode chegar tarde, não a menina”, “eu vou contar pro teu pai”... A mulher confirmando, no dia a dia, sua aceitação da inferioridade. Isso no doméstico. Fora dele os fatos tomam proporções assustadoras. E sabemos que isso não vai mudar enquanto homens e mulheres não se olharem como seres complementares e não concorrentes, com méritos iguais e iguais direitos. Enquanto as mulheres tiverem que se sobressair em qualquer setor para ser respeitada e não simplesmente porque todos os seres humanos merecem respeito.
Por mim, dispenso as homenagens. Quero ser mulher e mulher cada vez melhor, todos os dias. E quero ser homenageada todos os dias porque sou uma pessoa que luta e que conquista e não por um detalhe genético que determinou meu sexo à minha revelia.”
Por Rosaipa (Artigo publicado a 08/03/2002) / Usina das Letras
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