Banalização do compromisso

“A palavra perde o significado encerrada num guarda-jóias cheio de alianças abandonadas. As inquietações com a descoberta do amor, as dúvidas e as certezas são mascaradas como objetos. Quando crescer, provavelmente, a menina trocará de amores com a facilidade de quem troca de alianças.

O menino aproximou-se tímido e, quase sem palavras, entregou uma aliança de compromisso. Uma revelação anunciada nos cantos da turminha do ensino fundamental. A menina sorriu como se ganhasse um trófeu. Colocou o anel no dedo e, também sem palavras, correu para o grupo de amigas que testemunharam a declaração do infante apaixonado para se glorificar da conquista.

O coração da pequena de dez anos batia por outro, mas suas mãos ostentaram o pacto com o amor revelado, a rendição diante da valentia do pretendente. Ele não chegava a ser exatamente interessante, mas estava interessado. O namoro desenvolveu-se como são as primeiras impressões, distantes da realidade, ela valia-se de ser objeto do desejo do outro, ele gabava-se de já ser compromissado com uma das meninas bonitas da sala.”
Helena Sut / Carta Maior
Crônica Completa, ::Aqui::

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