“É uma característica marcante, no que se refere à Aids, a pauperização, a feminização e a interiorização da epidemia. Em uma abordagem global, isso se evidencia nos altos índices de prevalência da miserável África subsaariana, que concentra hoje 24,7 milhões de portadores do vírus, perfazendo 63% do total mundial.
Já quanto à feminização da doença, ela é também bem mais insidiosa nas regiões mais pobres do planeta e do país. Se nos estratos sociais de padrão econômico mais elevado – onde, supõem-se, o nível de informação sobre os direitos femininos e a respeito de noções básicas de saúde sexual é proporcionalmente mais alto - os índices de contaminação continuam aumentando de ano para ano, é fácil imaginar o que vem acontecendo entre as mulheres de camadas sociais mais baixas, onde a pressão econômica é acrescida, em muitos casos, de devastador preconceito cultural.
Não quero cair aqui nessa espécie de niilismo elitizado que vem caracterizando as referências a datas que marcam batalhas difíceis de serem vencidas, afirmando que não há nada ou muito pouco o que se comemorar em mais este Dia Mundial de Luta contra a Aids. Ao contrário, obtivemos, sim, grandes avanços, no Brasil e no mundo, e a própria complexidade através da qual a epidemia é hoje abordada – tome-se por exemplo a constatação do avanço de casos entre pessoas da terceira idade - é uma comprovação de que estamos dando passos importantes em nosso combate.”
Telma de Souza / Portal PT

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